Com a equipe de transição já montada e operando, com alguns nomes confirmados para o futuro ministério e indicações mais claras sobre as políticas que marcarão o próximo governo, o presidente eleito Jair Bolsonaro tem dado sinais de que dedicará atenção especial à política externa. Numa linha de evidente e assumida oposição às práticas dos governos do PT e a promessa de um pragmatismo sem colorações políticas e objetivos comerciais postos em primeiro plano. Intenções que ficaram suficientemente claras em algumas referências aos países vizinhos, integrantes do Mercosul, que o futuro presidente sugere serem aliados que recebem muito e oferecem pouco.

O tema, evidentemente, comporta discussões mais amplas, num contexto de melhor compreensão dos interesses geopolíticos que estão em jogo, na perspectiva do Brasil. Por outro lado, abre espaço para discussões que são tão pertinentes quanto urgentes e dizem respeito especificamente às relações com o Paraguai. São distorções antigas em que o lado brasileiro finge ignorar que o vizinho foi transformado numa grande base a partir da qual operam contrabandistas que têm interesse no mercado brasileiro, desde eletrônicos de origem duvidosa até armas e drogas, num comércio ilegal que costuma ter como moeda de pagamento veículos roubados no Brasil.

Tudo às claras e com mínima interferência de um e de outro governo, embora os prejuízos para o Brasil vão muito além da casa dos bilhões de dólares. Por exemplo, estima-se que hoje cigarros contrabandeados do Paraguai já ocupem 54% do mercado brasileiro. A produção no país vizinho, controlada por seu ex-presidente, chega a 62 bilhões de unidades/ano e o consumo interno mais a exportação legal não passam de 4 bilhões de unidades/ano. O resto é vendido no Brasil sem qualquer formalidade legal.

Não é possível aceitar que tudo isso ocorra sem qualquer reação efetiva que vá além dos esforços da Receita Federal e da Polícia Federal, que evidentemente não tem como dar conta da tarefa. E não se trata apenas de guarnecer as fronteiras ou de qualquer outra ação unilateral. Estamos falando de políticas de Estado e, para ajudar, podemos lembrar a tributação incidente sobre cigarros no Paraguai não chega aos 2% enquanto no Brasil alcança os 80%, situação que se repete quase que como regra e faz entender porque nossos vizinhos fizeram de seu país uma espécie de entreposto de contrabandistas.

Por óbvio, esta é uma situação que está longe de ser aceitável e que só pode ter prosperado por conta da cumplicidade ou da omissão, sendo razoável esperar que o novo governo pense da mesma forma.