Diferentemente do habitual, o ensaio de hoje terá um conteúdo menos técnico e mais filosófico. Tratarei aqui da constante mudança de emoções relativa ao ato de empreender. Ao longo de 18 anos empreendendo em meu próprio negócio e vivendo intensamente este movimento junto aos clientes, torna-se importante trazer essa perspectiva ao leitor. Como exemplo, há exatos seis meses vivi junto a um empreendedor parceiro um momento de êxtase no qual conseguimos finalizar uma etapa importantíssima do negócio envolvendo a consolidação do plano do negócio e a captação do recurso financeiro para sua implantação. Agora o negócio passa por dificuldades de implantação inerentes a qualquer startup ou mesmo a empresas de perfil mais tradicional. Como lidar com essa variação tão rápida, frequente e intensa de emoções mantendo o foco e o equilíbrio na gestão de um negócio?

Já tratamos neste espaço de métodos, ferramentas e pilares da gestão, da inovação e empreendedorismo que são essenciais para a sustentabilidade de um negócio ao longo dos anos. Tudo certo, temos razão, mas como ter a mente preparada para conscientemente dar valor e espaço à ciência gerencial para que ela guie nossas decisões e ações empresariais em momentos tão distintos vividos por um empreendedor? Trago aqui uma resposta não definitiva (até mesmo por não acreditar em respostas definitivas) mas que direciona um norte para vivermos esses momentos, respeitá-los e até mesmo, e porque não, aproveitarmos os mesmos de forma serena e com felicidade.

Procurei a chave para isso na filosofia logosófica e sua tratativa de um valor essencial ao homem: o tempo. Para Gonzáles Pecotche, o tempo “tem um valor que se acha representado em todos os atos da vida; com isso queremos dizer que por seu aproveitamento o homem é capaz de ser e de fazer muito ou nada”. Complementando, “o tempo é a essência oculta da vida; é a própria vida em todo o seu percurso. Olhemos o tempo perdido como vida que se foi de nós sem ser vivida em sua plenitude, e aprenderemos a viver na consciência do verdadeiro existir, prolongando-a indefinidamente, ao deter o tempo e fazê-lo servir aos fins da evolução”.

O que extrair dessas afirmativas? Devemos dar ao tempo seu devido valor e utilizá-lo como o recurso essencial para nossa vida. Proponho fazer isso a partir da execução de três movimentos: (1) Planejar o uso do tempo, (2) Ter atenção ao momento vivido, e (3) Aproveitar as horas livres para vislumbrar o futuro.

Planejar o uso do tempo nos permite eliminarmos as preocupações que nos consomem a mente no tempo presente, e ao mesmo tempo abre espaço para que no terceiro movimento possamos refletir sobre o que foi planejado e executado (no segundo movimento) para expandirmos o pensamento para o tempo futuro. Neste primeiro movimento devemos hierarquizar nossas atividades definindo as prioridades e abrindo mão do que não é determinante no tempo atual.

Ter atenção ao momento vivido garante a execução com qualidade da atividade outrora planejada evitando assim a ocorrência de erros, desvios e retrabalho que levaria à consequente perda de tempo e preocupação. Além disso, a atenção também se reflete no aprendizado da execução das atividades em um determinado tempo e contexto, essenciais para o terceiro movimento. Aqui neste movimento, devemos aproveitar o momento e fazer as atividades planejadas com gosto e alegria, registrando o passo a passo e os resultados alcançados.

Por fim, o terceiro movimento propõe o aproveitamento das horas livres para vislumbrar o futuro de forma a evitarmos a acomodação característica aos momentos de sucesso e também a preocupação e o desalento característicos dos momentos de turbulência e de insucesso. Estar aberto ao livre pensar nos permite avaliar todo o movimento ocorrido entre o planejamento e a execução das atividades essenciais ao negócio e vislumbrar o futuro libertando o pensamento de visões exageradamente otimistas ou pessimistas.

E então? Quem se dispõe a essa reflexão e treinamento mental?

*Sócio-diretor da DMEP