O Praia Clube, localizado em Uberlândia, conta com 156 placas de captação de energia - Foto: Divulgação

DANIELA MACIEL e THAÍNE BELISSA

Não é novidade que o Brasil tem um potencial de uso de energia solar ainda pouco aproveitado. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o País tem uma capacidade instalada que ultrapassa 500 MWp e investimentos acumulados de R$ 2,5 bilhões, mas esses números ainda representam menos de 0,01% da demanda nacional. Por outro lado, a conscientização sobre a urgência da adoção de energias limpas e o barateamento da tecnologia parecem começar a mudar esse cenário. Empresas de diferentes tamanhos investem em serviços para substituir a energia elétrica pela solar.

Especialistas apontam o preço da energia fotovoltaica como um dos principais motivos para os investimentos em usinas de placas solares no Brasil. Nos últimos 10 anos, essa fonte ficou 75% mais barata e, para ajudar nesse cenário, o governo tem favorecido o setor com isenções de impostos e facilidades de financiamento. Em Minas Gerais, por exemplo, há isenção de ICMS na energia gerada para usinas fotovoltaicas com capacidade de geração de até 5 MW e para qualquer equipamento que faça parte do sistema de um gerador fotovoltaico.

Foi justamente por encontrar esse ambiente propício que a Ambev escolheu Minas Gerais para inaugurar sua primeira usina solar para abastecimento de centros de distribuição. Com 4.905 painéis solares e capacidade de geração de 1.815 kWp, a usina será instalada no solo da cervejaria localizada em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. A energia produzida pela usina será suficiente para suprir a demanda dos 13 centros de distribuição da Ambev em Minas Gerais.

De acordo com o diretor de Sustentabilidade e Suprimentos da Ambev, Fernando Petersen, a empresa estudou diferentes estados e entendeu que Minas Gerais seria a melhor sede para o piloto. “É um Estado com grande incidência de sol e que tinha área disponível. Entendemos que começar por Minas Gerais daria mais velocidade ao projeto que é muito maior. Nossa meta é que, até 2025, todas as operações da Cervejaria Ambev no País utilizem energia vinda de fontes renováveis, seja solar, eólica ou outra mais apropriada para cada região”, explica.

O projeto da Ambev será desenvolvido em parceria com empresas do setor que assumam o investimento da construção da usina. Trata-se de um modelo de negócio em que a empresa constrói a usina e, em troca, recebe uma remuneração mensal advinda de parte da economia que a Ambev terá com energia elétrica. É o caso da usina da Cervejaria de Uberlândia: ela teve um investimento de R$ 7 milhões da paranaense Alexandria. Durante 10 anos a empresa receberá parte do ganho que a Ambev terá com redução de energia elétrica. Depois desse prazo a usina é cedida definitivamente à Ambev.

Outro exemplo de empresa que tem investido na energia solar é a construtora e incorporadora AP Ponto, que tem sede em Belo Horizonte. Há um ano, a empresa realizou um projeto-piloto com a instalação de placas de captação de energia solar no telhado do empreendimento imobiliário Ponto Acácia, localizado em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A usina gerou cerca de 30% de economia de energia para o condomínio e refletiu na diminuição de custos para os moradores.
De acordo com o diretor de Engenharia da AP Ponto, Webert Texeira, o projeto-piloto foi tão bem-sucedido que a construtora adotou o modelo para os demais projetos da empresa. Atualmente, a AP Ponto tem outros quatro empreendimentos em execução em Minas Gerais e todos incluem uma usina solar para geração de energia para as áreas comuns.

De acordo com ele, para incluir a usina no projeto a empresa investe entre R$ 250 a R$ 300 por unidade do empreendimento. Ele explica que esse custo acaba sendo absorvido pela construtora, mas garante que vale a pena. “A usina agrega muito ao proprietário, que tem economia com os custos e um imóvel mais valorizado. Além disso, a AP Ponto se preocupa com a sustentabilidade e estamos sempre buscando formas de poupar o meio ambiente”, afirma.

Também aderiu recentemente à produção de energia solar o Praia Clube, um dos maiores clubes da América Latina, localizado também em Uberlândia. A usina, que conta com 156 placas instaladas sobre o telhado da academia de musculação, foi construída e implantada pela Alsol Energias Renováveis, empresa acelerada pelo grupo Algar. O aporte foi do próprio clube, que não abriu o valor investido. As placas são suficientes para abastecer a academia e ainda haverá um excedente que será usado em outras áreas do complexo.

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Além de construir e instalar usinas fotovoltaicas como essa, a Alsol atende clientes por meio de um consórcio chamado Alsolar, que foi criado no ano passado e permite que várias empresas usufruam de uma mesma usina solar. De acordo com o presidente da empresa, Gustavo Malagoli, a Algar produz energia solar por meio de suas usinas e oferece uma espécie de “cota” para as empresas conveniadas.

Na prática, funciona assim: a empresa associada repassa para Alsol o valor que seria pago à companhia de energia, mas com descontos que variam de 10% a 20%. A Alsol, por sua vez, paga a conta dessa empresa com o fornecimento de energia gerada pelas suas usinas.

“Mais de 60 CNPJs já fazem parte do consórcio, sendo a maioria micro e pequenas empresas. O consórcio dá acesso à energia fotovoltaica a negócios que não são capitalizados e que não teriam dinheiro para investir em usinas próprias”, afirma.