O processo de inovação exige ação, explica Alessandra Prata - Foto: Samarco

DANIELA MACIEL

Universitários de todo o Brasil participaram, ontem, do demoday do Desafio MinerALL, promovido pela Samarco e pela Neo Venture – aceleradora de startups, em Mariana, na região Central. 414 estudantes, entre graduandos, mestrandos e doutorandos, de 29 cursos diferentes, se inscreveram no desafio acadêmico que tem como foco o aproveitamento dos rejeitos da mineração.


Os alunos selecionados tiveram contato com as tecnologias desenvolvidas pela Samarco para aproveitamento do rejeito da mineradora e, em apenas três meses, fizeram pesquisas de mercado e realizaram visitas técnicas para elaborarem os 14 relatórios detalhados dos empreendimentos projetados para serem implementados na região do quadrilátero ferrífero.


De acordo com a líder do Desafio MinerALL e especialista em aproveitamento de rejeitos na Samarco, Alessandra Prata, a iniciativa tem na sua logomarca a expressão “ALL” (do inglês, “todos”) em letras maiúsculas justamente para significar que a proposta inclui a empresa, academia e sociedade.


“Sozinhos não podemos quase nada. Boa parte das pesquisas não se transforma em negócio. Pra que isso aconteça precisamos contar com a sociedade. Na verdade, a tecnologia é a parte mais fácil, mas a inovação exige ação, por isso buscamos parceria com as universidades, com os governos e a sociedade”, explica Alessandra Prata.


O demoday é o momento em que as equipes apresentam os trabalhos para investidores, possíveis apoiadores, representantes do poder público e estudantes. “Em Minas é muito comum que existam tecnologias desenvolvidas pelas empresas que não se convertem em negócios e, por isso, não geram benefício para a sociedade. Quando começamos a conversar com a Samarco, percebemos que ela detinha algumas tecnologias pra isso e que poderíamos ser um elo pra levar essas tecnologias para o mercado. Esse projeto se enquadra em uma forma colaborativa a partir de um conhecimento prévio que foi aberto para comunidade científica. É uma relação ganha-ganha. A Samarco vai além da tecnologia, gerando um impacto para a comunidade do entorno, diversificando a economia local. Os alunos ganham uma vivência em inovação e empreendedorismo, temas ainda pouco tratados nas universidades, demonstram a sua capacidade de entrega e até, quem sabe, ganham uma oportunidade de desenvolver os projetos”, pontua o diretor técnico da Neo Ventures, Vinícius Roman.

Projeto – Alunos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Viçosa (UFV) criaram a Re-Tech – New Cycle. A equipe propõe a utilização de rejeitos da mineração como matéria-prima para a produção de liga de ferrosilício.


De acordo com o graduando em Engenharia Metalúrgica e de Materiais pela UFMG, Mathews Monjardim, o rejeito de minério de ferro da Samarco possui características em sua composição que permitem a aglomeração desse material para posterior distribuição direcionada às indústrias responsáveis pela produção de liga de ferrosilício. A tecnologia permitiria a redução de custos da produção da liga e também a minimização dos impactos ambientais ao longo da cadeia produtiva.


“Esse rejeito é um material muito fino, mas a sua aglomeração é um processo simples. Isso resultaria em uma matéria-prima mais barata para indústria e que diminuiria os impactos causados manejo do rejeito e pela diminuição da necessidade de mineração de quartzo e de minério de ferro. Nosso objetivo é tornar a mineração uma atividade mais sustentável”, afirma Monjardim.


A indústria de ferroligas representa um faturamento de R$ 8 bilhões por ano no Brasil. Minas Gerais é responsável por 63% da produção nacional e possui 69% da exportação desse material, que atende um mercado bastante globalizado, segundo o Sindicato da Indústria Mineral do Estado de Minas Gerais (SindiExtra).


Para o coordenador do Desafio MinerALL na UFMG, professor Rochel Lago, essa é uma chance para as universidades se aproximarem do mercado e oferecer aos alunos uma educação que faça mais sentido com o mundo que vão encontrar ao deixarem a academia. Para ele, a universidade necessita redefinir seu papel no mundo e uma das coisas importantes que ela precisa fazer é investir duramente no desenvolvimento da tecnologia, saindo da pesquisa básica, trabalhando em soluções que vão impactar a sociedade.


“Na minha área, especialmente, no impacto ambiental e no econômico também. É importante interagir com as indústrias para trabalhar com problemas relevantes e conseguir a auxiliar a nossa economia a ser mais competitiva no mercado global. Em um cenário de crise, com escassez de recursos públicos, não temos outra saída. E, por fim, a formação dos nossos profissionais. A universidade está atrasada porque continua formando empregados. Temos que formar gente com comportamento empreendedor. Esse tipo de programa faz tudo isso”, analisa Lago.