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Barão de Cocais e toda a Bacia Hidrográfica do Rio Piracicaba, na região Central de Minas Gerais, vivem dias de apreensão ante a possibilidade de rompimento da barragem de rejeitos da mina de Gongo Soco, sob responsabilidade da Vale. Conhecer os riscos enfrentados pela bacia e mobilizar as comunidades em prol da preservação de recursos hídricos nunca foi tão importante.

A Expedição Piracicaba – Pela Vida do Rio, organizada pelo jornal Tribuna do Piracicaba – A Voz do Rio e pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Piracicaba (CBH-Piracicaba), com apoio da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) e do Instituto Mineiro de Gestão de Águas (Igam), percorrerá os 241 quilômetros de um dos principais afluentes do rio Doce entre 26 de maio e 5 de junho, passando por Barão de Cocais em 28 de maio.

O principal objetivo da expedição é desenvolver uma pesquisa inédita sobre as condições do rio Piracicaba e afluentes, além de promover ações de mobilização social em 21 cidades. Com a possibilidade de colapso da Barragem Sul Superior, áreas da bacia podem ser afetadas pelo rejeito de minério de ferro, caso da Unidade Ambiental Peti (1,2 mil hectares) e dos leitos dos rios São João e Santa Bárbara, este último um importante afluente do Piracicaba.

Ter à disposição dados atualizados sobre um dos principais cursos d’água da região favorecerá a compreensão dos impactos gerados por um possível rompimento e contribuirá para futuras ações de recuperação. A coleta de amostras de água será antecipada na região em caso de vazamento, manobra viável devido ao tempo necessário para que a carga de rejeito alcance o rio Piracicaba.

Além do levantamento científico, a ação trabalhará a mobilização social em prol da revitalização dos cursos d’água e nascentes e promoverá eventos de cunho socioambiental e cultural nos municípios visitados. Serão realizados 24 eventos, todos organizados pelas prefeituras. A expectativa é a de que 20 mil pessoas participem dessas ações.

O idealizador do projeto e editor do periódico “Tribuna do Piracicaba – A Voz do Rio”, Geraldo Magela Dindão Gonçalves, ressalta que a continuidade do projeto está mantida.

“A Expedição Piracicaba continua firme e irá desenvolver um ótimo trabalho para toda a bacia. Mesmo diante da atual situação, o compromisso de compor um retrato inédito de um dos principais afluentes do rio Doce será cumprido. Estamos tomando todas as medidas de segurança cabíveis e esperamos concluir o trabalho conforme planejado”, afirma.

Pesquisa inédita – A Expedição Piracicaba reunirá pesquisadores, ambientalistas, órgãos públicos, empresas e outros parceiros na elaboração de um diagnóstico inédito sobre as condições do rio Piracicaba e da sua bacia, que integra 21 municípios e é habitada por cerca de um milhão de pessoas. Serão estudados parâmetros hidrológicos e de qualidade da água, uso e ocupação do solo, análise de sedimentos e identificação de fontes poluidoras.

Pela primeira vez será analisada a presença de 13 microcontaminantes no rio, um modelo de levantamento ainda raro no Brasil que identifica a presença de medicamentos, produtos de beleza, plastificantes e outras substâncias que são descartadas de forma incorreta, diretamente nos cursos d’água. Os microcontaminantes são altamente nocivos para o meio ambiente e a saúde humana, mesmo em quantidades mínimas.

“Os microcontaminantes são uma preocupação em função do aumento do consumo de medicamentos, cosméticos e de diversos tipos de plásticos. Tudo isso está indo para o rio através do lançamento de esgoto e de efluentes industriais sem tratamento. É urgente avaliarmos a presença desses compostos na bacia do rio Piracicaba”, ressalta Diego Lima, doutor em engenharia ambiental e um dos especialistas que compõem o quadro de pesquisadores da expedição.

Além dos 13 microcontaminantes, serão analisados 24 parâmetros de qualidade da água, como oxigênio dissolvido, condutividade elétrica, concentração de nitrogênio, fósforo, amônia, nitrito e de coliformes termotolerantes. Os dados obtidos serão comparados com resultados de estudos anteriores, que verificaram algumas das variáveis agora pesquisadas. As conclusões serão condensadas em uma publicação técnico-científica, cujo cronograma de lançamento se encontra em construção.

A Unifei – Campus Itabira é a responsável pela coordenação científica da expedição. A instituição é equipada com um dos mais modernos laboratórios de engenharia ambiental do Brasil e atuará nos trabalhos de coleta, análises laboratoriais e elaboração de relatórios técnicos.

As amostras serão coletadas em 28 pontos do rio Piracicaba, ao longo dos 241 quilômetros de extensão do leito. Os pesquisadores seguirão os requisitos da norma internacional ISO 17025, que garante a qualidade, confiabilidade e a rastreabilidade dos resultados.

Espera-se que o levantamento auxilie gestores na elaboração de políticas públicas de recuperação e conservação, uma vez que terão à disposição um amplo e detalhado retrato sobre as condições da Bacia Hidrográfica do Rio Piracicaba.

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Desdobramentos – Além dos resultados esperados já citados, a Expedição contribuirá para a Revisão do Plano de Bacia, projeto que será desenvolvido entre o segundo semestre de 2019 e primeiro semestre de 2020 pelo CBH-Piracicaba. Uma maior integração da bacia também é esperada como desdobramento da iniciativa.

Serão produzidos registro audiovisual de todo o percurso e atividades desenvolvidas, exposição fotográfica itinerante nas cidades da bacia entre 2019 e 2020 e a publicação de uma revista que trará a participação de cada município no projeto, além do livro- relatório mencionado anteriormente.

União de esforços – Oitenta e dois atores apoiam e participam da Expedição Piracicaba, todos envolvidos direta e indiretamente na construção de políticas públicas de recuperação e preservação de recursos hídricos. É o caso dos comitês das bacias hidrográficas do rio Doce e do rio das Velhas, das 21 prefeituras das cidades que compõem a bacia e das câmaras municipais de Rio Piracicaba, Nova Era, João Monlevade, São Gonçalo do Rio Abaixo, Mariana, Bela Vista de Minas, São Domingos do Prata, Barão de Cocais e Itabira.

Também são parceiros da Expedição a Agência Nacional de Águas (ANA), Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), Emater, Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Companhia de Polícia Militar de Meio Ambiente (Cia Mamb), Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, Ministério Público de Minas Gerais, associações dos municípios do Médio Piracicaba (Amepi) e do Vale do Aço (Amva), Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Itabira, Departamento de Água e Esgoto (DAE) de João Monlevade, Parque Estadual do Rio Doce (Perd) e Usina Hidrelétrica Guilman Amorim, além de diversas ONGs e entidades da sociedade civil.
A Expedição é patrocinada pela Usiminas, Gerdau, Cenibra, ArcelorMittal – Usina Monlevade e ArcelorMittal – Mineração Andrade.