Crédito: Isac Nobrega

JOSÉ ELOY DOS SANTOS CARDOSO *

Noticiários de jornais e redes de TV só falam dos desastres de Brumadinho e Mariana. Ambos os fatores vão alterar, com certeza, os panoramas mineiro e brasileiro. Esses desastres vão impactar os panoramas econômicos, mas a economia brasileira não se limita a esses problemas.

Conforme o artigo do economista Pedro Afonso Gomes, publicado na revista do Conselho Federal de Economia, ano X, nº 31, de janeiro a março de 2019, a coisa é mais complexa do que parece ser.

O modelo de negócios adotado pelas principais mineradoras do País, visando a maximizar sempre os lucros, não destina recursos suficientes para prevenção de riscos ao meio ambiente e à população diretamente ligadas à área que poderia ser atingida.

As penalidades não possuem recursos para problemas oriundos de ocorrências que representam valores incalculavelmente maiores do que aqueles apurados pelos peritos. Os ocorridos podem inibir eventos como aqueles de Brumadinho, mas não podem contribuir para calcular outros prejuízos que poderão ocorrer, principalmente, aqueles econômicos.

É claro que economistas ou qualquer técnico não são capazes de calcular prejuízos reais ocorridos em virtude de mortes de pessoas que estavam no local por obrigação ou lazer, que tiveram suas vidas ceifadas e, junto com elas, oportunidades de se desenvolver plenamente. Economistas procuram calcular prejuízos de pessoas que permanecem vivas e prejuízos em virtude dos desastres.

Deixando agora de lado os assuntos de Mariana e Brumadinho, vamos tentar “adivinhar” o que esperar da economia brasileira daqui para frente. Na realidade, ainda não conseguimos superar o que ocorreu no Brasil nos anos 2015 e 2016.

Com taxas de desemprego extremamente altas que só teimam cair vagarosamente (a taxa de diminuição de apenas 3,4% de hiato de produto, ou desemprego de fatores totais de produção), a recuperação da economia brasileira não será nada fácil. O ajuste fiscal (equilíbrio entre as receitas e despesas públicas) é importante, mas não resolverá os problemas brasileiros atuais.

Se abordarmos os cenários internacionais, nas visitas do governo brasileiro a investidores, é difícil no momento atual calcular até que ponto eles acreditarão nas perspectivas de investimento favoráveis. O presidente Jair Bolsonaro fala uma coisa, mas os ministros nem sempre estarão de acordo. Antes de investir, as tensões regionais poderão levar os investidores do exterior a pensar duas vezes em investir no Brasil.

As teorias econômicas que vêm sendo ensinadas nas faculdades brasileiras informam que o controle da espiral inflacionária é sempre necessária. Mas não o suficiente para o crescimento de longo prazo da economia. A previsão de inflação para 2019 de 3,85%, embora abaixo da meta estabelecida pelo Banco Central, que foi de 4,25%, foi boa, mas não o suficiente para dar sossego para a maioria dos economistas brasileiros.

Numa economia sem alto grau de confiança, uma simples ou complicada greve de caminhoneiros pode mudar da noite para dia as boas perspectivas de crescimento que poderão surgir. Como o preço do óleo diesel é determinado para ser mais ou menos equivalente aos preços internacionais, até uma variação dos preços do petróleo no mundo poderá provocar e influenciar o que acontecer no ambiente brasileiro interno.

Em economia, como uma ciência social e não exata como as matemáticas, a inflação é sempre uma grande inimiga do crescimento de longo prazo. Os componentes políticos, por sua vez, terão grande influência naquilo que pode acontecer nos ambientes econômicos com o Brasil, seu nível de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), ou melhoria ou piora dos níveis de emprego do trabalho com carteira assinada.

Economia é como uma corrente totalmente interligada. Quando se puxa uma ponta, toda a corrente vai acompanhar o movimento. Para começar, os investimentos públicos em infraestrutura poderão no Brasil puxar a máquina ferroviária que puxará todo o trem a ela ligado.

*Economista, professor titular de macroeconomia da PUC-Minas e jornalista.