Rinaldo de Castro Oliveira*

A dicotomia na administração de organizações em relação às formas de conhecimento que impulsionam o movimento evolutivo desse importante campo de atuação tem sido discutida por muitos e muitos anos. Gaston Bachelard, filósofo e poeta francês que construiu sua obra do início até meados do século XX, afirmava que a “ciência se opõe absolutamente à opinião”, sendo o senso comum uma forma de conhecimento falso, e que o “novo espírito científico” é essencialmente uma retificação do saber, um alargamento dos quadros do conhecimento. Dessa forma, os pilares da ciência moderna são apresentados, onde o conhecimento científico com a sua incansável capacidade de questionar o status quo tem sido um fator determinante para o desenvolvimento de tecnologia e inovação. Nesse ensaio, me coloco a pensar em alguns pontos envolvidos nesse tema: olhando grande parte das empresas, o quanto de ciência tem sido aplicado na gestão de seus negócios? E por que é tão difícil muitas vezes combinar o uso do conhecimento científico com as práticas empresariais mais empíricas?

Talvez um dos pontos que limitam essa questão é o entendimento equivocado de que a ciência se aplica apenas às tecnologias inovadoras, sejam elas, por exemplo, no campo da internet, biologia ou química. O seu uso na área social humana, se estendendo à administração de empresas, é tido por muitos como algo fora de contexto. Ainda hoje, para muitos a gestão organizacional tem mais haver com arte, “feeling”, do que com técnica e ciência. Não que os aspectos mais subjetivos da gestão, relacionados às práticas e culturas organizacionais desenvolvidas ao longo do tempo não sejam importantes no gerenciamento de negócios. O que se questiona é a quase negação do conhecimento científico, que em muitos casos pode contribuir para a melhoria dos processos de negócios, trazendo melhores condições para as empresas enfrentarem os seus desafios.

Diversas teorias organizacionais e metodologias de pesquisa estão disponíveis para os gestores de empresas desenvolverem suas estratégias e ações de crescimento. O uso de técnicas quantitativas baseadas em estudos experimentais ou levantamento de dados, combinado com poderosas ferramentas de análise estatística são exemplos disponíveis e aplicáveis em muitas situações no campo dos negócios. Da mesma forma, pesquisas qualitativas com características mais exploratórias, visando conhecer melhor determinados fenômenos associados às opiniões de consumidores, bem como de outras partes relacionadas à empresa, também podem ser utilizadas para melhor orientar as decisões a serem tomadas.

Diante desse cenário, é incompreensível em tempos de elevada incerteza e de transformações cada vez mais abruptas no ambiente de negócios as empresas não se utilizarem de tecnologias gerenciais e de informações qualificadas como faróis nesse momento turbulento e inédito que vivemos. Voltando à questão central desse ensaio, negar a ciência aplicada à gestão empresarial é talvez, conforme colocado por Bachelard, estreitar o desenvolvimento do conhecimento nas organizações, e assim, limitar o processo de evolução. As empresas precisam incorporar o “espírito científico”, sem abrir mão de tudo que ela já construiu e aprendeu, utilizando-se dessa base de conhecimento e de novos problemas e oportunidades para desenvolver estudos que lhes direcionem para o melhor caminho de crescimento.

* Sócio-diretor da DMEP