À medida que uma empresa cresce e se torna mais complexa, é comum que membros das famílias deixem o dia a dia, optando por uma gestão da empresa profissional, diz Mendonça - Créditos: PITI REALI / Divulgação

Uma pesquisa realizada pela consultoria PwC Brasil e pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) revela que aproximadamente 64% das médias e grandes empresas familiares brasileiras possuem alguma forma de conselho de administração.

Nessas companhias, a adoção e o formato do conselho dependem da relação que o fundador da empresa tem com o negócio e a geração da família que está no comando.

Realizado pela primeira vez no Brasil e divulgado neste mês, o levantamento teve a participação efetiva de 279 empresas de capital fechado com controle acionário familiar, sendo 15 de Minas Gerais. A maior parte da amostra, aproximadamente 70%, foi fundada há, pelo menos, 25 anos.

Os resultados indicam que as empresas em um ciclo geracional mais avançado são as que mais frequentemente incorporam práticas de governança.

“O desafio é que as boas práticas de governança permeiem também empresas sob a gestão da primeira geração, de forma que empresa e família capturem os benefícios da boa governança”, afirma o sócio e líder de Serviços para Empresas Familiares da PwC Brasil, Carlos Mendonça.

Ele ressalta que, à medida que uma empresa cresce e se torna mais complexa, é comum que membros das famílias deixem o dia a dia, optando por uma gestão da empresa por meio de profissionais que não façam parte da família.

“Nesse contexto, as famílias optam por participar do negócio por meio de estruturas de conselhos”, analisa Mendonça.

De acordo com o sócio da PwC Brasil, o estudo oferece indícios sobre os desafios que as famílias empresárias enfrentam ao longo de suas trajetórias.

Apesar de cada família ter uma história única, alguns padrões merecem atenção especial. Um dos principais é que as boas práticas de governança estão mais presentes entre as empresas que se encontram na terceira geração.

Esse cenário impõe às famílias empresárias a necessidade de discutir, com antecedência, as questões de governança, familiar e corporativa, para que possam trilhar o caminho da longevidade nos negócios.

“É previsível que haja dispersão da propriedade entre gerações e falta de proximidade e interesse das próximas gerações pelo negócio da família. Nesse contexto, é importante que o acordo de acionistas contenha regras para a saída deles. Essas regras devem abranger a forma de avaliação e o prazo de pagamento aos membros da família que tenham interesse em sair do negócio”, afirma.

Envolvimento da família na empresa

• Em 64,2% da amostra, o fundador atua na empresa.
• O diretor-presidente é um membro da família controladora em 82,1% das empresas.
• A existência de um conselho de administração estatutário é mais frequente entre as empresas que estão na terceira geração e em que o fundador não está mais atuando. Na segunda geração há um percentual maior de conselhos consultivos, enquanto na terceira geração prevalecem os conselhos estatutários.
• A presença de um conselheiro independente ocorre com mais frequência entre as grandes empresas e entre aquelas em que o fundador não está mais atuando.
• Conflitos familiares são apontados como o principal motivo para a saída de sócios das empresas pesquisadas. Enquanto a “profissionalização” da gestão e a expansão do negócio são os principais motivos para a entrada de novos sócios.

Governança

• Entre os motivos que levaram as empresas a discutir as questões de governança, aprimorar o modelo de gestão foi o mais recorrente, tendo sido assinalado por 67,4% das empresas.
• Somente 10% das empresas afirmaram nunca ter discutido a adoção de práticas de governança.

Governança familiar

• 73,1% das famílias pesquisadas têm pelo menos uma estrutura de governança familiar. A mais comum é a reunião/assembleia familiar.
• 48% das famílias elaboraram um documento que disciplina a relação entre a família e o negócio. A existência desse documento é menos frequente entre as empresas comandadas pela primeira geração ou em que o fundador ainda está atuando.
• As famílias apresentam mais regras para tratar da entrada de familiares na empresa do que para disciplinar a sua saída.
• 68,1% têm mecanismos formais para garantir a separação entre o patrimônio da família e o da empresa.
• A maioria (59,5%) conta ou contou com orientações de profissionais externos para a gestão do patrimônio da família. Escritórios de advocacia e empresas de consultoria são os orientadores mais frequentes.
• Apenas 27,6% têm plano de sucessão para cargos-chave. O percentual é ainda menor (19,6%) quando considerado o plano para o presidente do conselho de administração.
• O percentual de empresas com plano de sucessão não ultrapassa 40%, independentemente do recorte analisado. O grupo de empresas com faturamento anual superior a R$ 400 milhões é o que detém o maior percentual, 40%. Também se destacam em relação às demais as empresas em que o diretor-presidente é da terceira geração, 38,7%.

Governança corporativa

• 59,5% das empresas têm acordo entre os seus sócios.
• Entre as empresas que têm conselho de administração, 41,9% têm comitês temáticos de assessoramento. Os mais comuns são de auditoria, recursos humanos, estratégia e finanças.
• 22,3% das empresas que têm conselho de administração realizam algum tipo de avaliação formal do órgão. Apenas 4,5% realizam tanto a avaliação do conselho como colegiado quanto dos conselheiros de forma individual.
• 93,9% das empresas têm alguma estrutura de fiscalização e controle. A mais recorrente é a controladoria.
• 63,8% das empresas apresentam código de conduta/ética, e 64,6% dos códigos contemplam os valores fundamentais da família empresária.

Intenções e planos da família empresária

• Em 69,2% das empresas, a intenção da família empresária controladora é expandir o negócio atual. Somente 6,8% pensam em sair do negócio em que estão atuando e 4,3% pretendem diminuir a participação da família na empresa.

Participação do fundador e ciclo geracional

• Em 35,8% das empresas pesquisadas, o fundador já não está presente. Nos casos em que ele ainda trabalha na empresa, sua atuação é maior na diretoria.

Conselho de administração

• Entre as empresas respondentes, 64,2% têm alguma forma deconselho de administração, seja ele consultivo ou estatutário.

Propriedade

• A maioria das empresas é considerada unifamiliar, ou seja, tem apenas uma família controladora (71,7%). Além disso, apenas 20,4% têm sócios não familiares. Entre essas, o tipo mais comum de sócio externo é o empresário individual (61,4%).

Sucessão

• A sucessão é um dos principais desafios enfrentados por famílias empresárias: 72,4% das empresas brasileiras responderam não ter um plano de sucessão para cargos-chave.