Cesar Vanucci*

“Descrever coisas óbvias do cotidiano com vocábulos estrangeiros
é rematada panaquice, além de significar indigência cívica e cultural.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

l Coronel Elesbão, chefe político respeitado, proprietário de extensos alqueires de terra pra cultivo e gado em São José do Mantimento e cercanias, resolveu visitar a filha Lindaura, estudante de psicologia na Capital. Acompanhou, com paternal solicitude, satisfação estampada na expressão facial de natural sisuda, a incrementada programação de passeios bolada pela jovem, caçula de uma penca de nove filhos, os demais do sexo masculino.

Esteve no Mercado Central, visitou a Pampulha, foi ao Mineirão. Aplaudiu espetáculo no Palácio das Artes. Bebeu (pra valer) cerveja artesanal e empanturrou-se com comida de boteco na Savassi. Subiu Bahia, desceu Floresta. Enturmou-se com os colegas da filha. A propósito, achou dois deles “um tanto fora dos eixos e dos conformes”. “Excesso de ademanes pro meu gosto roceiro”, como andou comentando, num “papo reservoso” com a moça, ao transmitir-lhe recomendações acerca das cautelas que “as pessoas direitas carecem adotar no enfrentamento dos desatinos da cidade grande”. No último dia da viagem, o coronel foi levado a jantar em restaurante classificado pela filha como “top”.

“Chique de lambuzar, lugar cheio de nove horas”, Elesbão fez questão de anotar em sua arguta percepção cabocla. Considerou o cardápio “tranchã”, apesar de achar “os preços por demais salgados.” “Não tou acostumado – comentou, soltando estrepitosa risada – com conta de restaurante de valor parelho com o de uma casa de quatro cômodos lá do Mantimento.” Informou-se, finda a refeição, “da localização do banheiro”. Bastante descontraído – devido talvez à cerveja ingerida, misturada com cachaça -, confessou à turma, esforçando-se por reduzir o tom de voz, mas ainda assim fazendo-se ouvir por todos: “Estou apertado. Preciso verter líquido rápido, senão vem vexame por aí.” Alguém apontou a porta do sanitário no fim do corredor. Disparou para lá. Confundindo-se, enveredou pela porta errada. Cuidava de ajeitar o correão da calça quando topou, assustado, com duas clientes do restaurante, igualmente às voltas com arrumação das peças íntimas. Resumo do bololô: o caso do homem pilhado no reservado feminino foi parar na gerência do estabelecimento. Ânimos apaziguados, a explicação do coronel sobre o incidente desfez o mal-entendido e, ainda por cima, fortaleceu uma tese defendida com ardor por intelectuais e educadores. É aquela tese que sustenta o despropósito, a indigência cívica e cultural contidos no emprego abusivo, carregado de pernosticismo, de palavras estrangeiras para descrever situações óbvias do cotidiano. Vocábulos do tipo “off”, “sale” pra anunciar queima de mercadoria; “feedback”, pra pedir retorno de informação; e outras babaquices que tais, anotadas com frequência na escrita e no prosear, sugerindo um processo de macdonaldização do idioma pátrio. Por isso mesmo, o arremate do coronel Elesbão revelou-se magistral: “Como é que o degas aqui, bocó da roça, poderia adivinhar que o “blokes” da placa sinaliza mictório de macho? Lá onde moro, a gente chama uma asneira dessas de xibunguice vocabular, tá bem procês?”

Fraturou a perna, numa jogada brusca, na tradicional disputa domingueira de futebol de salão na quadra do condomínio. Foi levado pela ambulância ao Pronto Socorro. Voltou pra casa com fortes dores, escorado em muleta, trazendo recomendação de repouso por alguns dias. O vizinho de apartamento, médico de boa reputação, parceiro nas recreações esportivas, indicou-lhe um ortopedista de peso e medida para acompanhá-lo na recuperação. O atleta acidentado marcou consulta com o facultativo apontado, fraternal colega do vizinho médico desde os bons tempos de faculdade. Voltou do contato com cara de quem comeu e não gostou. Deixou o vizinho médico boquiaberto ao esclarecer a razão do desaponto afivelado na face: “O cara me atendeu com cortesia, muito parangolé, relembrando passagens de vocês na vida universitária. Serviu cafezinho, coisa e tal, pedindo-me lhe desse um forte abraço, confessando por último que o meu tratamento não é assunto da área dele.”
“Mas, como!” – obtemperou o interlocutor. “Ele deixou a ortopedia?” “Nada disso, aí é que tá. Disse, simplesmente, haver se especializado em cuidados terapêuticos relacionados com ombro direito e o meu problema é na perna esquerda”…

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)