Perspectiva de queda na receita com as exportações de soja afeta os contratos cambiais - Créditos: REUTERS/Paulo Whitaker

São Paulo – Os exportadores brasileiros têm pisado no freio na hora de fecharem contratos de câmbio nestes primeiros meses do ano, e mesmo uma aceleração a partir de agora não deve significar ingressos de recursos volumosos o suficiente para levar o dólar de volta às mínimas do ano, na casa de R$ 3,65.

A alta da moeda norte-americana em março para os R$ 4 até estimulou alguma antecipação de “hedge” cambial, com as empresas vendendo na B3 contratos a termo de dólar sem entrega física, os chamados NDFs. Mas esse reforço apenas equiparou os volumes do trimestre aos dos primeiros três meses de 2018. E, com a expectativa de menor crescimento nas exportações e o cenário tortuoso para a Previdência, a venda de dólar se torna mais arriscada, o que desestimula o fechamento de câmbio e, portanto, de entrada de fluxo no mercado.

Ontem o dólar voltou a alcançar a marca de R$ 4, mas passou a cair e operar em torno de R$ 3,95 após fala do diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra Fernandes, de que a autoridade monetária não tem “preconceitos” em relação ao uso de qualquer instrumento cambial.

“As primeiras duas semanas de abril foram fracas, e mesmo o dólar rondando agora os R$ 4 não tem atraído fluxo mais forte”, disse o superintendente-executivo de empréstimos e pagamentos do Santander Brasil, Fernando Pierri.

A constatação de abril tem registrado volumes apenas moderados no fechamento de câmbio e chama a atenção sobretudo porque é neste mês que a montagem de “hedge” cambial costuma alcançar os picos do ano.

“O exportador é muito movido por oportunidade. Ele só faz esse ‹hedge’ se achar que o dólar pode cair. No atual momento, ele teria de estar otimista”, disse o diretor de produtos de balcão, commodities e novos negócios da B3, Fabio Zenaro.

No acumulado dos três primeiros meses de 2019, as vendas de dólares pelas empresas exportadoras na B3 via NDFs chegaram a US$ 32,1 bilhões, praticamente o mesmo volume do primeiro trimestre do ano passado, quando houve aumento de 28% sobre os três meses iniciais de 2017. Os dados são da B3.

O volume de exportação no período caiu 4% sobre um ano antes (pela média diária), conforme números do Ministério da Economia.
Pelo relatório mais recente, de março, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) estima a safra de soja do Brasil em 2019 em 116,9 milhões de toneladas, abaixo do total de 123,08 milhões do ciclo anterior.

As receitas com vendas do complexo soja (grão, farelo e óleo) devem cair 20% em 2019 sobre 2018, conforme a Abiove. O complexo soja é o principal produto da pauta de exportação do País, representando 17,1% de todas as vendas externas no ano passado.

De acordo com o responsável pela área de corporate banking do BofAML no Brasil, Marcelo Carvalho, muitas empresas adiantaram no fim do ano passado operações cambiais, o que reduz o espaço para “surpresas” positivas do lado do fluxo nos próximos meses.

Carvalho reconhece que o patamar historicamente alto para o dólar, perto de R$ 4, é um elemento a fomentar adiantamento de “hedge”, mas lembra que os exportadores também deram um passo para trás diante de incertezas tributárias.

Ele se refere ao entendimento da Receita Federal, desde o fim do ano passado, de que se deve cobrar IOF nas operações de câmbio referentes à internalização de recursos de exportação mantidos no exterior. Algumas empresas acionaram a Justiça contra a taxação, mas o assunto segue em aberto.

O executivo destaca que a aprovação da reforma previdenciária poderia “destravar” a demanda por “hedge” cambial na venda de dólar, à medida que a redução da incerteza levaria investidores a desfazer posições defensivas no mercado, o que derrubaria a cotação da moeda.

“Nesse caso, o exportador se anteciparia, mas sem a presença forte do estrangeiro, uma queda substancial do dólar é dúvida”, afirmou, citando taxas entre R$ 3,80 e R$ 3,85 com a volta do exportador. (Reuters)