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Carlos Perktold*

A violência no mundo já foi maior que nos dias de hoje, mesmo considerando as guerras em curso e os assassinatos de hoje pelo mundo afora. Quando Moisés recebeu as Tábuas da Lei, escritas pelo dedo de Deus,

Este fixou limites que o Homem ignorava: não matarás, não cobiçar a mulher do próximo, não furtar por que, assassinato, estupro e roubos eram atividades comuns no cotidiano. Alguém matava o outro apenas por que ele não tinha certeza se não seria morto ali na esquina pelo mesmo desconhecido. Sobrevivia quem era mais forte e mais esperto que o outro. O decálogo fixa limites éticos e morais que passam a ser observados pelo povo judeu e que se espalhou pelo mundo, melhorando os relacionamentos na medida em que os limites foram aceitos. Aceitá-los passou a ser de interesse de todos. Com a tipificação de crimes e suas punições em diferentes códigos penais na Antiguidade, as relações humanas foram melhorando ainda mais.

A horrível tragédia de milhares de assassinatos por ano no Brasil piorou a partir da abertura da compra/venda de drogas e da implacável ética dos traficantes. Piorou tanto nas ultimas décadas no Brasil que chegamos à situação atual na qual dificilmente somos superados até por países em guerra. São mais de sessenta e cinco mil assassinatos por ano. A esmagadora maior fica sem investigação e punição. Faltam-nos peritos, material, instrumentos, arquivos, dados informatizados, laboratórios, etc. para investigar, prender e punir para diminuir esse número. Policiais garantem que falta até gasolina para uso nos carros oficiais e, acima de tudo, falta interesse político nas suas apurações. O clichê da célebre impunidade prevalece sobre 99% dos casos. Nada acontece com os criminosos. Há poucos anos foi preso um pedófilo que confessou 127 assassinatos de adolescentes. Por que não o prenderam no décimo? Ou no vigésimo? Por que esperar 127 mortes até ele cometer um erro elementar e ser descoberto, denunciado ou preso?

As pessoas matam por diferentes motivos: vingança, ciúme, amor, inveja, ódio, traição, roubo, doença, acidente e até por erro de pessoa. Matam também gratuitamente porque, como esclareceu Freud, temos dentro de nós a pulsão de morte, nos empurrando para o estado inanimado. Para o velho bruxo vienense, morte não tinha o sentido literal, mas o nosso desejo de chegar neste estado. Talvez a pulsão freudiana tenha sido percebida por Jesus Cristo quando nos ensinou a oração Pai Nosso e imploramos: livrai-nos do mal. Qual dos males Ele se referia? Principalmente sobre aquele que está dentro de nós, mas que fica latente, domesticado pelo aprendizado das regras sociais, códigos, polícia e ameaça de punição. Se o infante não assimila os sim e os não que a vida nos impõe, o mal brotará dentro do sujeito com a força de um demônio enfurecido e ele se torna insensível à penúria do outro. Tornar-se-á um psicopata.

Serei injusto comentando aqui sobre os rapazes assassinos de Suzano, pois não os conheci pessoal ou profissionalmente e o leitor tem todo direito de me julgar precipitado por que nunca os examinei e, menos ainda, tenho uma súmula psicopatológica para dar um diagnóstico. Mas a primeira hipótese de diagnóstico de qualquer profissional do mundo psi neste caso é que os rapazes eram psicóticos, tiveram um surto e, com a facilidade de conseguir dentro de casa ou comprado ali pertinho de casa de outro bandido um revolver calibre 38, mais uma besta e um machado, produziram a tragédia conhecida de todos.

Mas por que o colégio e seus colegas? A indagação deve ser respondida por quem conhece suas biografias. Do mais jovem, sabemos que teve mãe drogada há anos e cuja gestação do filho deve ter deixado sequela neurológica e, mais tarde, com as primeiras vivências e as dificuldades afetivas que a vida lhe impôs, sugiram os primeiros sintomas de hebefrenia. Sintomas que ninguém percebeu ou não quis perceber e nem tratá-los como devia. Talvez nem tenham percebido como uma doença grave. Esses sintomas podem ter aparecido na escola, em casa, no seu comportamento social inadequado em diferentes ocasiões e até na incoerência da linguagem. Ninguém percebeu ou valorizou a doença dos rapazes. A informação sobre o pai é tão pobre quanto deve ter sido o relacionamento dos dois, pois o tio tentou se colocar no lugar do progenitor, orientando-o e oferecendo-lhe trabalho. Foi o primeiro a ser assassinado. Do assassino mais velho, nenhum dado biográfico foi publicado.

É pouco provável que jogos de vídeos os tenham levado ao que fizeram. Em certos casos, é conveniente que garotos utilizem jogos violentos. Ajuda a descarregar a agressividade.

Se vamos procurar um culpado pela tragédia devemos procurá-lo no nosso cotidiano, meu, o do leitor, das nossas famílias, da nova tecnologia e de todos na sociedade. É culpado o sujeito que insere a boneca Moma e a coloca nos youtubes infantis, incentivando e ensinando crianças de quatro ou cinco anos a matar seus pais ou suicidarem-se. São culpados também os adolescentes que agridem professores e definitivamente não aceitam limites. E ainda é culpado o nosso tempo sem empatia, desinteressado e egoísta.

  • Psicanalista e escritor