O princípio da democracia é o pluralismo, diz Marlise Matos - Créditos: Guilherme Bergamini

E não foi apenas no ambiente organizacional que a luta pela equidade de gênero reverberou. Movimentos autônomos liderados por homens também dão sua parcela de contribuição e mostram que o machismo é tóxico não apenas as mulheres, mas para a sociedade de maneira geral.

Idealizador do projeto “Pai tem que Fazer de Tudo”, o mineiro Bruno Santiago deixou emprego formal para se dedicar à paternidade e disseminar a ideia de que o homem não é um ajudante da mulher no ambiente doméstico, mas um protagonista junto com ela.

O empreendedor mantém um blog sobre o assunto e participa de diversos eventos como palestrante. Ele lembra que as ideias alimentadas pelo machismo, como o entendimento de que homem precisa ser forte e deve bancar a casa, são prejudiciais inclusive para os homens, que passam a adoecer.

“Eu já ouvi pais dizerem que não trocam a fralda das filhas por serem meninas, o que é um absurdo. Essa história que homem não pode beijar, abraçar, rolar de terno e gravata no chão com os filhos é fruto de um padrão cultural. Isso tem que mudar: o homem pode, sim, ficar em casa com a mulher e ser bem-sucedido”, frisa.

Santiago está convencido de que esse movimento dos homens para ocupar seus lugares nos lares é essencial para que as mulheres avancem em sua ocupação do mercado de trabalho.

“Se há protagonismo dos dois lados a mulher não fica sobrecarregada. A Tereza, que é a mãe do nosso filho Samuel, tem carga horária maior que a minha e ganha mais do que eu. Qual o problema? Eu sempre digo às mães para não reforçarem essa ideia de que elas têm que ser as leoas da casa. Não tem: o homem não é coadjuvante e tem papel essencial na casa”, destaca.

Santiago também reforça a importância do pai na educação dos novos cidadãos. Ele afirma que os pais têm uma “mina de ouro nas mãos” para virarem o jogo e ajudarem a construir uma geração menos machista.

“Eu não cobro do meu filho aquela ideia de virilidade, converso com ele sobre o cuidado com o próprio corpo, cobro dele que ajude em algumas tarefas domésticas. Acredito que são nessas pequenas coisas que a gente vai mudar a realidade. Mas é um trabalho constante, de todo dia”, conclui.

Espaço político – A política é outro espaço de poder onde as mulheres ainda são minoria. Na eleição passada, elas chegaram a uma representação de 15% no Congresso Nacional, o que significa um crescimento de 5% em relação à última legislatura, mas ainda é muito pouco, considerando que as mulheres são a maioria entre os eleitores.

A coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher (Nepem) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marlise Matos, afirma que o movimento de exclusão das mulheres do campo político tem múltiplos fatores, mas ela destaca que a organização dos partidos políticos são um dos principais obstáculos para elas.

“Se eu tivesse que escolher o principal motivo do afastamento das mulheres da política seria os partidos, que são estruturas masculinizadas. Eles são os responsáveis pelo financiamento das campanhas, mas tratam as mulheres como menos relevantes, o que pode ser facilmente comprovado pelos escândalos de mulheres-laranja”, afirma.

Para a especialista, não é preciso criar mais leis para garantir a participação das mulheres no campo político, mas reforçar a fiscalização e a punição dos partidos que não cumprem a legislação. A lei prevê que os partidos reservem, pelo menos, 30% das candidaturas para as mulheres.

“É preciso um controle dos tribunais eleitorais: bastava telefonar para as candidatas ou mandar um questionário. Os partidos burlam a legislação com laranjas porque têm certeza da impunidade”, frisa.

Marlise Matos lembra que o princípio da democracia é o pluralismo e, por isso, a diversidade no poder público é essencial.

“A democracia só funciona se existir a liberdade de se debater ideias, de se discutir diferentes visões de mundo, diferentes demandas para o Estado. Se o Congresso é composto por 90% de homens é improvável a vocalização das demandas das mulheres. A desigualdade é brutal”, reforça.

OBJETIVO 5

ALCANÇAR A IGUALDADE DE GÊNERO E EMPODERAR TODAS AS MULHERES E MENINAS

5.1 – Acabar com todas as formas de discriminação contra todas as mulheres e meninas em toda parte;

5.2 – Eliminar todas as formas de violência contra todas as mulheres e meninas nas esferas públicas e privadas, incluindo o tráfico e exploração sexual e de outros tipos;

5.3 – Eliminar todas as práticas nocivas, como os casamentos prematuros, forçados e de crianças e mutilações genitais femininas;

5.4 – Reconhecer e valorizar o trabalho de assistência e doméstico não remunerado, por meio da disponibilização de serviços públicos, infraestrutura e políticas de proteção social, bem como a promoção da responsabilidade compartilhada dentro do lar e da família, conforme os contextos nacionais;

5.5 – Garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública;

5.6 – Assegurar o acesso universal à saúde sexual e reprodutiva e os direitos reprodutivos, como acordado em conformidade com o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento e com a Plataforma de Ação de Pequim e os documentos resultantes de suas conferências de revisão.

5.a – Realizar reformas para dar às mulheres direitos iguais aos recursos econômicos, bem como o acesso a propriedade e controle sobre a terra e outras formas de propriedade, serviços financeiros, herança e os recursos naturais, de acordo com as leis nacionais;

5.b – Aumentar o uso de tecnologias de base, em particular as tecnologias de informação e comunicação, para promover o empoderamento das mulheres;

5.c – Adotar e fortalecer políticas sólidas e legislação aplicável para a promoção da igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas em todos os níveis.