Dona Valdete pergunta a Jaqueline por que ela nunca alisou o cabelo. A moça, uma bela negra, responde que se sente absolutamente feliz do jeito que é. Dona Valdete arregala os olhos, gastando um segundo para replicar: “Mas você ganharia muito mais classe se alisasse o seu cabelo”. Jaqueline responde rápido, sem titubear: “Essa é a minha classe, dona Valdete, a do cabelo crespo, a do cabelo ruim”. A velha senhora torna a encarar a jovem.

Parece confusa. Move a cabeça repetidas vezes, em sinal de desaprovação, enquanto limpa o balcão da padaria em que trabalha, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. Tomo o meu café a um canto, discreto, sem chamar atenção, os ouvidos atentos ao diálogo entre gerações. São quase sete da manhã e o local já está bastante movimentado. Os clientes não dão muita trégua aos funcionários, mas a conversa entre as atendentes continua.

Jaqueline deve ter entre 18 e 20 anos. Se meus cálculos estão corretos, ela nasceu por volta do ano 2000, ou um pouco antes. Está sempre bem-disposta, animada e sorridente. É agradável conversar com ela, ainda que dona Valdete não entenda muito bem o que ela diz.

De novo, sobre o cabelo, a menina afirma, em voz firme, para não correr o riso de ser ignorada: “a senhora sabe que quando eu era criança teve uma tia que quis alisar o meu cabelo? Eu corri dela como o diabo foge da cruz. Eu sou quem eu sou. Disfarçar pra quê? Eu não tenho vergonha de ser como eu sou. Eu tenho é orgulho!” Dona Valdete relembra: “Pois minha mãe alisou o meu cabelo rapidinho. Eu não tinha nem cinco anos. Era um sacrifício, mas para minha mãe era como se me desse um banho. Era questão de higiene. Acabei acostumando. Minha mãe dizia que a gente era mais bem considerada se alisasse o cabelo.”

Jaqueline lança um olhar de ternura e compreensão rumo à sua colega de trabalho. Não tem por que recriminá-la. Mas é clara na defesa de suas ideias: “Mas hoje tudo mudou, né, dona Valdete. O mundo evoluiu. E ele é grande demais. Cabe todo mundo. Tem espaço pra todo mundo. Cada um do seu jeito, com a sua cultura”.

Na fila para pagar o lanche matinal, percebo que as duas mulheres à minha frente, esbeltas, em roupas de ginástica, estão comentando o diálogo que, também elas, tiveram a chance de escutar. “Então nunca vai trabalhar na minha empresa. Desse jeito, com essa cabeleira, nunquinha, nem pensar. Nem pra servir café”. A outra complementa: “Essas meninas não pensam no mercado de trabalho, na carreira. São muito ingênuas. Acham que podem sair na rua de qualquer jeito, e não é assim. A aparência ainda é tudo!”. Por um segundo, tenho vontade de interferir, mas logo me dou conta da inutilidade da minha intenção. Uma delas tem os traços do rosto repuxados, seguramente, por algum bisturi. A segunda apresenta, igualmente, uma fisionomia alterada (botox?), sem que eu seja capaz de identificar precisamente o que a deixou do jeito que está. Decido começar a minha caminhada pela Praça da Assembleia, como sempre faço, embora as cenas da padaria sigam comigo, bem vivas.

O dia passa e não consigo esquecer Jaqueline e sua voz clara, vigorosa, ativa na defesa de sua identidade. Imagino-a resistindo à tia, quando ainda era criança. Imagino-a resistindo provavelmente ao longo de sua adolescência. E até agora, na juventude. É o que é preciso fazer, sempre: resistir.

* Jornalista. Da Academia Mineira de Letras