Estados Unidos interromperam a importação de carne bovina in natura em meados de 2017. Créditos: FREDAMORELLI / DIVULGAÇÃO

Nova York – A ministra da Agricultura do Brasil, Tereza Cristina, disse ontem que o acordo com os Estados Unidos (EUA) para mais inspeções no sistema brasileiro de processamento de carne é um “gesto” insuficiente, já que os negociadores esperavam reabrir o mercado norte-americano ao produto in natura nacional.

Tereza Cristina participou da comitiva liderada pelo presidente Jair Bolsonaro esta semana, em Washington, o que resultou também em um acordo para uma cota livre de tarifas para importação de trigo fora do Mercosul e medidas para eventualmente permitir a importação de carne suína dos EUA.

Um movimento dos EUA no setor de carnes do Brasil é um “gesto” de boa vontade, mas não uma concessão e não é suficiente, disse Tereza Cristina em uma entrevista à Reuters.

“Isso realmente não é uma concessão, é uma questão técnica. Eu não considero isso uma troca”, afirmou a ministra, em Nova York.

Os EUA suspenderam as importações de carne bovina in natura do Brasil em meados de 2017, após a detecção de inconformidades nas importações, na esteira de um escândalo de fiscalização sanitária, que envolveu pagamento de propinas por empresas a fiscais.

Trigo – A ministra esclareceu que o Brasil concordou em conceder uma cota de 750 mil toneladas em importações de trigo isenta de tarifas para todos os países, incluindo os EUA, normalmente os principais fornecedores dos brasileiros fora do Mercosul.

O comunicado divulgado após o encontro entre Donald Trump e Jair Bolsonaro indicava que a cota seria apenas para o trigo dos EUA.

“Acreditamos que a cota será muito importante para os Estados Unidos, porque os Estados Unidos são muito competitivos, mas ela (cota) é aberta” a outros exportadores, explicou Tereza.

O Brasil abriu recentemente o mercado ao trigo russo, que poderia concorrer com o produto dos EUA.

Suínos e etanol – O Brasil e os EUA afirmaram em comunicado conjunto que concordaram com as condições técnicas que poderiam abrir caminho para a abertura do Brasil às exportações de carne suína dos Estados Unidos.

O próximo passo seria o Brasil enviar inspetores para os EUA, embora nenhuma data tenha sido marcada para tal viagem, disse Tereza.

Um possível acordo comercial entre os EUA e a China, que impulsionaria as compras dos EUA, é uma preocupação, mas qualquer acordo precisaria ser avaliado, destacou a ministra.

Ela contou também que viajaria para a China, potencialmente em maio, visando, entre outras coisas, ao fortalecimento das relações para beneficiar o comércio de soja.

Autoridades norte-americanas queriam também discutir questões tarifárias para importação de etanol, que expiram em agosto, disse a ministra. Uma renovação da tarifa brasileira de 20% fora da cota seria um duro golpe para a indústria de etanol dos EUA, que já está em dificuldades – o Brasil é o maior importador de etanol dos EUA.

Mas, segundo a ministra, isso teria que estar ligado ao aumento do acesso ao mercado de açúcar dos EUA para os produtores brasileiros, algo que os norte-americanos não parecem prontos a fazer. “É por isso que não progredimos”, concluiu ela. (Reuters)