Foto: Divulgação

Alexandre Horácio

A indicação do filme mexicano “Roma” (foto), de Alfonso Cuarón, a dez categorias do Oscar, cujos vencedores serão anunciados na noite de 24 de fevereiro, sacramenta uma tendência de mudança de perfil no mercado cinematográfico mundial e do público, que vem ganhando força e velocidade nos últimos anos. Por ironia à própria Academia de Cinema de Hollywood, “Roma” foi lançado diretamente na Netflix, sem passar pelas tradicionais salas de exibição.

Hoje o público que frequenta o cinema é bem diferente dos anos 80 e 90 e busca mais diversão e entretenimento do que uma obra que o faça pensar, incomode e continue viva na sua cabeça após sair da sala de exibição. A geração de 30 anos atrás ia ao cinema em busca de conhecimento, evolução e cultura, acima de tudo, e assistia aos filmes em absoluto silêncio e concentração, como se estivesse numa igreja.

Os cinéfilos mais antigos frequentavam as sessões do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais (CEC-MG) na Sala Humberto Mauro, ao circuito de filmes de arte formado por Pathé, Roxy e Odeon, aos cineclubes como o da Faculdade de Ciências Econômicas (Face) da UFMG e o do saudoso Instituto Goethe, onde eram exibidas mostras fantásticas como as do Expressionimo Alemão, de Fritz Lang (“A Morte Cansada”) e Murnau (“Nosferatu”), e do Novo Cinema Alemão, com destaque para Wim Wenders, Herzog e Fassbinder.

Nos dias atuais, as pessoas conversam alto, falam no celular e mastigam pipoca ruidosamente nas salas de exibição, um fragrante desrespeito com o próximo que pretende realmente assistir ao filme.

A forma de ver cinema mudou muito em função do avanço da tecnologia e de um novo perfil de exibição, com equipamentos domésticos que transformam um canto de sua casa num pequeno, mas sofisticado, cinema. Entretanto, nada substitui a tela grande, o retiro e o clima dos grandes cinemas. Mas por outro lado, a comodidade de assistir um filme em seu lar, na hora que você quiser, com direito a rápidos intervalos, ganhou espaço no mercado.

Após o videocassete, o DVD e o Blue-ray, o cinéfilo conta hoje com a Netflix, que exibe ótimos filmes e lança diretamente para o público obras como “Roma”, que acaba de abocanhar prêmios no “Globo de Ouro”, além dos canais por assinatura que incluem na sua programação filmes alternativos, como os excelentes Arte 1 e Curta. As séries também ganharam mercado com produções de qualidade similar à do cinema, como “Vikings” e “Gomorra”. Há ainda a opção de baixar um filme diretamente na internet.

A mudança de perfil, tanto na produção quanto na distribuição e exibição de filmes, é profunda e rápida. Por um lado, o cinema alternativo e de arte ficou cada vez mais escasso, com algumas exceções é claro, e, por outro, espaços tradicionais da exibição destes tipos de filmes em Belo Horizonte e outras capitais do País ou fecharam as portas, como o Usina, ou passaram a dar preferência pela exibição de obras mais comerciais, como o Belas Artes.