Marco Guimarães*

Após a coletiva de imprensa, Natalie voltava para a sua sala quando um policial disse que o comissário queria lhe falar e que sua colega de apartamento também havia telefonado.

Primeiro o dever, falou para si mesma, já discando para o comissário.
• Bom-dia, tenente. Já soube que se saiu muito bem — disse ele.
• Não me senti muito bem mentindo sobre o capitão, mas…
• Mas, no momento, era a única coisa a ser feita. Uma pequena mentira como essa não trará consequências maiores.
• É, senhor comissário, o problema está na perpetuação da mentira e na sua utilização como ato rotineiro.
• Bem, tenente, na nossa profissão convivemos com isso todos os dias; salvo os raríssimos casos em que os suspeitos declaram ser culpados dos delitos cometidos. Quase todos mentem até onde podem, em uma tentativa de se livrar dos seus delitos.
• E às vezes quase nos convencem.
• Eles já perpetuaram dentro de si a mentira, e a utilizam como ato rotineiro; acabam acreditando que suas mentiras são a mais pura verdade, às vezes nem se dão conta disso — filosofa o comissário.
• O capitão e eu já havíamos conversado sobre isso. Ele diz que, nesses casos, o que se tem são “as verdades mentirosas”.
• Pode ser. Mas vamos falar sobre o desaparecimento do capitão. Alguma notícia?
• Ainda não. Solicitei as fitas com as filmagens. Temo que tenha ocorrido com ele o mesmo que ocorreu com as duas.
• Ninguém desaparece assim. Mande as fitas que registraram o desaparecimento da menina para o laboratório. Sei que o Maurel já havia virado essas fitas de cabeça para baixo, mas ele mesmo já comentara que iria enviá-las para o laboratório — sugere o comissário.
• É, pode ser que equipamentos mais sofisticados descubram algo.
• Eu tentei ligar para Virgínia, mas caiu na secretária eletrônica e o celular estava fora de área.
• Eu consegui falar com ela. Parece que os dois estão prestes a se separar. Virgínia estava dormindo na casa de uma amiga, que mora na mesma rua, e não fala com o capitão há dois dias. Ela está pensando em dar um tempo, deixar Paris e ir para Fixin — revela Natalie.
• “Dar um tempo” parece ser a linguagem falada imaginada em um mimetismo circunstanciado aos que querem preanunciar as suas separações. A expressão, então, toma para si a tarefa quase mecânica, você não acha, tenente?
• Pois é, capitão, às vezes somos obrigados a formar conceitos e símbolos para compreender, prever e criar a realidade. Mas, em outras ocasiões, fazemos tudo isso para nos preparamos para enfrentar a dor e o sofrimento impostos por uma separação.
Ainda perplexa com o diálogo mantido com o comissário, Natalie desliga o telefone, apoia os pés sobre a mesa e liga para a namorada.

  • Escritor. Autor dos livros “Fantasmas de um escritor em Paris”, “Meu pseudônimo e eu”, “O estranho espelho do Quartier Latin”, “A bicha e a fila”, “O corvo”, “O portal” e a “A escolha”