Crédito: Divulgação

O diafragma de uma câmera se abrindo e se fechando marca uma nova etapa do filme, trazendo a informação de que estou em férias no Brasil. Em um mês, retornarei a Paris. Vejo-me conversando com um grupo de amigos com quem tive bastante relação no passado.

— Estão a fim de dar um pulo no sítio do tio Manuel? Ele comprou um cavalo novo. Acho que podemos montar! — nos convida Toninho.
— E a gente aproveita para fazer as pipas, meu pai já comprou o papel faz um tempão — diz Zezinho.
— Que pipa, que pipa nada, vamos chamar o tio Celso, ele tá de férias e pode fazer o balão com a gente, temos que aproveitar ele agora! — retruca Sérgio.
— Sérgio, não temos nada pra fazer o balão — fala Adelson.

Eu entro na conversa dizendo que poderíamos fazer as duas coisas e termino dizendo que daria para comprar o material para o balão no armazém do Zinho.

O sítio do tio de Toninho fica ao pé de uma das montanhas que cercam o vilarejo. Um estreito e longo caminho de terra batida, vindo desde a estrada, nos faz chegar à casa principal, onde um grande terreiro com uma parte cimentada parece justamente ter sido preparado para fazermos as pipas e o balão.

Ainda guardo na memória as nossas aventuras com as pipas e com os balões que soltávamos. Tinha o hábito de colocar um pequeno pedaço de papel com um bilhete na linha que prendia a pipa, na esperança de que, ao ser carregado pelo vento, esse bilhete ganhasse altura e chegasse aos céus.

Esperava que algum anjo visse o bilhete e atendesse as minhas solicitações que, em sua grande maioria, faziam referência à minha mãe. Pedia vida longa para ela, tinha o receio de que ela pudesse morrer muito cedo, ideia que me perseguia e me apavorava.

Talvez este receio tenha aparecido depois que um dos empregados de meu avô, em uma brincadeira de mau gosto, me dissera, ao cavar um buraco, que a minha mãe seria enterrada ali. Depois do episódio, o empregado foi despedido, apesar dos pedidos de clemência que fizera, dizendo ter uma família a sustentar.

Comovido com sua situação, pedi a meu avô para reconsiderar a decisão; pedido feito, pedido aceito, afinal, eu era o xodó do meu avô. De joelhos, o empregado me agradeceu, afirmando que Deus iria me abençoar para sempre.

Já os balões me ofereciam um divertimento especial. Uma vez soltos, um grande mistério os cercava porque não sabíamos onde cairiam, embora sempre tivéssemos a esperança de resgatá-los. Também nos divertíamos tentando recuperar os balões vindos do outro lado da montanha, quase todos com as lanternas já apagadas, mas com as buchas ainda incandescentes.

Um desses balões, que consegui resgatar sozinho no sítio de meu pai, trazia um papel com um nome — Alzira — e, em cada canto do papel, havia um pequeno coração desenhado com lápis vermelho. No centro, um endereço: Vale das Cerejeiras.

*Escritor. Autor dos livros “Fantasmas de um escritor em Paris”, “Meu pseudônimo e eu”, “O estranho espelho do Quartier Latin”, “A bicha e a fila”, “O corvo”, “O portal” e “A escolha”