Marco Guimarães*

Após se despedir de Annick, Virgínia subiu ao apartamento de Isabelle para deixar a pequena mala de mão que mantivera consigo. Em seguida, foi ao seu apartamento para tentar falar com Maurel. Haviam combinado de não se falarem por uns tempos, mas ela achava que deveria comunicar a sua decisão de ir para Borgonha.
Tão logo digitou o código de entrada do prédio, encontrou uma vizinha, cujo apartamento ficava ao lado do seu.
— Bom-dia, Virgínia. Estou sentindo falta de vocês. Viajaram?
— Bom-dia, Anna, eu estou na casa de uma amiga, mas o Maurel ficou aqui.
— Há dois ou três dias que não o vejo.
— Deve estar com excesso de trabalho.
— É, deve ser isso. Bem, até mais — disse a vizinha, se despedindo.
A casa estava relativamente em ordem, exceto pelo único quarto do apartamento, cuja cama estava desfeita, com lençóis jogados no chão, e pela cozinha, onde a louça suja do café havia sido deixada na mesa. Ela notou que ao lado do bule de leite havia um documento com o boletim meteorológico dos últimos dias, mas não deu muita importância ao fato.
— Bem, parece que o Maurice saiu às pressas; ele não deixaria essa sujeira toda por aqui — pensou Virgínia.
Foi, então, ao telefone e ouviu as mensagens ali deixadas:
“Maurel, aqui fala o comissário. Onde diabos você está? A imprensa o aguarda. Venha logo.”
“Capitão, aqui fala Natalie. O comissário ligou soltando fogo pelas ventas. Tentamos ligar para o seu celular, sempre fora de área. Por favor, faça contato.”
Retirou da bolsa uma caneta e começou a escrever um bilhete em uma folha em branco, esquecida ao lado do boletim meteorológico que encontrara sobre a mesa.
Maurice, sei que combinamos de não nos falar por uns dias, mas queria lhe comunicar uma decisão de última hora. Amanhã irei para Fixin, ficarei uns dias na casa de Annick até encontrar um lugar para mim. Sei que é medida extrema e tomada de última hora, mas penso que será melhor para nós dois. Desculpe-me, na dúvida se deveria ou não lhe avisar, retirei a identificação do meu telefone, mas, antes mesmo que você atendesse, desliguei. Além de tudo era bem cedo, e me dei conta de que você poderia estar dormindo.

  • Escritor. Autor dos livros “Fantasmas de um escritor em Paris”, “Meu pseudônimo e eu”, “O estranho espelho do Quartier Latin”, “A bicha e a fila”, “O corvo”, “O portal” e “A escolha”