Créditos: Pixhere

Natalie telefonou para sua casa, mas ninguém atendeu. Precisava falar com Noah, sua namorada, que deixara recado enquanto ela estava na coletiva de imprensa.

Apesar de morarem na mesma casa, há dias não a via. O desaparecimento de Aline sobrecarregou toda a equipe que tratava do caso.

Após o sumiço do capitão Maurel, seu chefe imediato, ela foi designada para assumir o caso, fato que provocaria ainda mais aumento na sua carga de trabalho.

A relação entre ela e a namorada havia chegado a um ponto crítico; as cobranças feitas por Noah a deixavam irritada, mas, mesmo ciente de que ouviria mais reclamações, Natalie continuou telefonando. Após muita insistência, Noah atendeu.


— Estou há um tempão tentando falar com você.


— Ah, até que enfim apareceu a Margarida — disse Noah.


—  As coisas por aqui estão muito complicadas; agora o Maurel também desapareceu.


— O que significa que…


— Que eu terei muito mais trabalho. Serei a responsável pelo caso do sequestro, até que ele resolva dar o ar de sua graça.


— Sabe há quanto tempo não dormimos juntas? Uma semana, Natalie. Apenas uma semana. Uma longa semana.


— Desculpe, minha cabeça está inteiramente concentrada nesse caso. Há cobranças de todos os lados. Eu esperava que você entendesse melhor a situação.


— Isso tudo está me deixando muito desequilibrada emocionalmente, e eu não sou especialista em gerenciar desequilíbrios. Vou tirar o meu time de campo. Voltarei para Inglaterra.


— E me diz isso assim, pelo telefone?


— Sinto muito, mas como já disse, há uma semana não te vejo. Pego o trem às 14:31. Se quiser se despedir estarei na Gare du Nord às 14 horas.


— Você está certa de que é isso mesmo que quer?


— Natalie, ambas estamos certas de que esse é o nosso desejo.


— Tentarei ir até a gare.

Natalie conhecera Noah em um bar londrino, estava de férias e acabara de terminar um relacionamento de mais de cinco anos com um policial.

Até então nunca tivera uma experiência amorosa com alguém do mesmo sexo. Sabia que os seus pais, que moravam no interior da França, não aprovariam o namoro com uma outra mulher.

Ela achava que a experiência seria passageira e que logo voltaria a ter alguém do sexo oposto. Mas o tempo passou e a relação entre as duas estava prestes a fazer três anos quando Noah tomou a iniciativa de ir embora.


— Melhor assim, meu destino será namorar alguém que tenha os mesmos horários e as mesmas atribulações, e quer saber? Seja homem ou mulher — pensou ela.


Tão logo terminou a ligação, fez sinal para um policial, chamando-o a sua sala.


— Encaminhe para o laboratório as fitas com o registro do desaparecimento da menina. Quero uma análise o mais rápido possível. Ah, e veja também se há fitas com imagens do capitão Maurel e as envie igualmente ao laboratório.


— Sim, senhora, farei isso imediatamente. Eu ia mesmo vir aqui lhe dar um recado. Enquanto a Sra. estava ao telefone, a esposa do capitão telefonou. Queria saber dele. Não comentei nada sobre o seu desaparecimento e eu disse que a Sra. ligaria para ela.


— Fez bem, enquanto não soubermos o que aconteceu, é melhor não a preocupar.

  • Escritor. Autor dos livros “Fantasmas de um escritor em Paris”, “Meu pseudônimo e eu”, “O estranho espelho do Quartier Latin”, “A bicha e a fila”, “O corvo”, “O portal” e “A escolha”