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Marco Guimarães *

— Por falar em mãe, a sua deve estar fazendo o almoço. Quando cheguei vi uma fumaça saindo da chaminé.
— Não tenho mãe, não. Ela morreu quando eu nasci. Fui criada pelo meu pai. Ele sai toda manhã pro trabalho. Só volta à tardinha.
— Você fica sozinha esse tempo todo?
— Ahã, agora fico, já tenho 12 anos. Antes ficava aqui perto, na casa de minha tia Glória, sabe? Mas ela é muito chata. Fazia de mim uma criada. Era Alzira pra lá, Alzira pra cá, o tempo todo. Alzira, me dá um copo de água. Alzira, pega o meu sapato, e por aí vai. Cansei.
— Agora ajudo meu pai com a limpeza da casa. Ele hoje está de folga, colocou o feijão no fogo, foi ali na roça e já volta. Ele normalmente faz a comida quando vem do trabalho e a deixa pro dia seguinte. Já disse a ele que eu podia cozinhar, mas ele vive dizendo que não me quer perto do fogão, a não ser que o fogo esteja apagado.
— Meu avô também tem essa preocupação e diz pra eu não brincar com fogo, porque quem brinca com fogo, segundo ele, se mija todo à noite. Ele acha que eu
acredito nesta história. Você tá estudando, não tá?
— Porque pergunta? Não deveria estar na escola?
— Deveria sim, mas tem tanta gente lá do meu lado que não estuda, que…
— Eu vou para a escola de manhã, mas esta semana não tem aula, não.
— Eu sei, nas escolas de meus amigos daqui também não, acho que todas suspenderam as aulas por uma semana. Agora são nossas férias grandes lá na França. E no resto tempo, o que você faz?
— Já tô meio grandinha pra brincar de boneca, né? Mas mesmo assim, de vez em quando, eu pego ela, sabe? Ela foi minha companheira durante muito tempo, costumava conversar muito com ela.  Fazia de conta que era a minha irmã. Ah, também brinco de amarelinha e gosto de ler os livros que pego na biblioteca da escola. E você?
— Tenho alguns amigos aqui no Brasil, quando venho pra cá, a gente solta pipa, faz balões, joga bola de gude, joga pelada em um campinho de futebol e, assim como você, também gosto muito de ler.
— E você quando ficar mais velho quer ir para outro lugar?
— Eu gosto muito de Paris, fui para lá muito pequeno. Mas também gosto muito da natureza daqui, das árvores, do rio que passa na casa onde estou. Sabe, tenho umas ideias meio doidas, de vez em quando até digo que quando morrer quero voltar como um grande pássaro, que consiga voar e visitar todos os lugares de que gosto.
— Eu acho que ficarei aqui a vida inteira.
— Nunca se sabe. Quem sabe você não vai para um lugar bem longe?
— Tomara que você esteja certo. Eu gosto daqui, mas queria ver outros lugares. Sei que não é possível, mas gostaria de voar junto com os balões que soltam por aqui.

A nossa conversa é interrompida pelo pai de Alzira, que chega com alguns pés de alface e alguma coisa que parece ser uma abóbora. Ao nos ver, pergunta quem sou e o que faço ali. Meio desconcertado, digo que sou um colega de Alzira. Antes de entrar em casa, diz, em um tom pouco amigável, que ela não demore com a conversa.

Ela fala que tem que ir e pergunta se posso voltar mais vezes para conversamos. Falo que sim. Ela então me diz que há um rio com uma piscina natural, e que se eu quisesse poderíamos ir até lá dar um mergulho. Respondo que sim, que gostaria muito de ir até o rio.
 
*Escritor. Autor dos livros “Fantasmas de um escritor em Paris”, “Meu pseudônimo e eu”, “O estranho espelho do Quartier Latin”, “A bicha e a fila”, “O corvo”, “O portal” e “A escolha”