BRUNO MARQUES *

As relações institucionais sempre serão um ponto de atenção, sejam para as iniciativas empresariais ou para o terceiro setor. Muito além das questões técnicas, cujos objetivos são materiais e perceptíveis aos olhos dos públicos de relacionamento, as questões institucionais são subjetivas e intangíveis.

Antes de mais nada, é fundamental mapear e, em seguida, se debruçar a conhecer, profundamente, as características, desejos, anseios e interesses dos stakeholders de cada projeto. Quanto mais diversificado é este público – que manifesta interesse, direto ou indireto, nas ações e resultados dos empreendedores – mais complexo será criar a teia de relações e conexões, casando interesses, a fim de executar o projeto tentando atender todas as expectativas e exigências.

Em um país como o Brasil, onde o Estado é deficiente em inúmeros serviços públicos, como água tratada, saneamento, esgoto, desenvolvimento econômico, educação, saúde, habitação, segurança pública, infraestrutura básica, entre outros, a chegada de grandes projetos diante de populações carentes do aparato da administração pública pode se tornar uma grande oportunidade para compensar parte destas lacunas em troca da aceitação da comunidade local.

De fato, grandes projetos levam a essas comunidades, já fragilizadas e sem as condições de atender à própria população local, ainda mais conflitos, sobrecarregando os equipamentos públicos.

Esses projetos não podem gerar mais danos e prejudicar as comunidades locais, que já se encontravam no território. É de se esperar que empreendimentos de grande porte, com potencial para interferir na dinâmica social dessas localidades, deixem contrapartidas que ajudem a melhorar a condição social da região.

Exigências que vão muito além das medidas para compensar e mitigar os impactos gerados pelos projetos são desproporcionais, incabíveis e de responsabilidade do Estado.

Muitos atores sociais, mesmo tendo essa consciência, se beneficiam de sua influência junto à comunidade local, e, às vezes, de prerrogativas administrativas, para inserir exigências em troca do apoio popular e, em alguns casos, até de licenças e outorgas.

É nesse cenário que nascem os desafios institucionais na implantação de grandes projetos. Muitas vezes, as exigências e contrapartidas não são justas ou equilibradas aos impactos a serem gerados pelos projetos. Mesmo cientes desse descompasso, stakeholders impõem sua vantagem e cobram o atendimento de desejos subjetivos em troca de favorabilidade.

É comum no Brasil projetos, “redondos tecnicamente”, ficarem parados – deixando de gerar empregos, riquezas e renda – esperando por licenças e atos autorizativos de representantes de poderes públicos em troca de contrapartidas que são de responsabilidade do próprio Estado.

O argumento é sempre o mesmo: as comunidades são pobres, carentes e precisam aproveitar a oportunidade para se desenvolver. Com isso, investidores nacionais – e principalmente os estrangeiros – se afugentam e milhares de empregos deixam de ser gerados.

Há que se reconhecer que contrapartidas às comunidades são necessárias, porém devem ser equivalentes aos impactos que serão gerados. Impactos sociais e ambientais.

Mas é importante frisar que já há contrapartida financeira dos empreendedores durante o processo de licenciamento ambiental. Além do imposto a ser gerado com aquisição e a prestação de serviços no território. Entretanto, esse recurso raramente é aplicado na localidade de execução do projeto, o que contribui para acentuar ainda mais o conflito.

Os empreendedores, com receio de se indisporem com os gestores públicos, responsáveis pela concessão e fiscalização de licenças, acabam contornando as exigências, e passam a negociar as contrapartidas, mesmo que incabíveis.

Aos profissionais de relações institucionais e aos executivos que representam os empreendimentos cabe envolver o máximo de stakeholders possível, conhecendo todos os atores, apresentando fatos e argumentos, passando uma mensagem coerente, carregada de ética e estimulando a construção de relações saudáveis. Por mais que essa fórmula tenha que ser repetida inúmeras vezes, é importante estabelecer uma relação de confiança, norteada pela honestidade e pela coerência.

*Comunicador Social, pós-graduado em Sustentabilidade e Gestão de Negócios, ambos pela Fundação Dom Cabral, e estudante do 9° período do curso de Direito da Faculdade Milton Campos. Tem experiência no licenciamento e implantação de grandes empreendimentos como P4P, da Samarco, e Manabi; além de vivência na área de Comunicação de empresas como Ferrous e Usiminas. Atualmente, faz parte do time de Relações Institucionais da Fundação Renova.