Tilden Santiago*

A doutrina bíblica só é legítima e aproveitável ao homem, a meu ver, quando se percebe sua relação profunda com a vida (e a morte) da humanidade e com a sustentabilidade do universo, especialmente dos recursos naturais, presentes no meio ambiente.

Afunilando essa observação mais geral sobre o livro sagrado da tradição judaico-cristã e colocando nosso foco em “O Eclesiastes”, livro sapiencial da 1ª Aliança, mas reconhecido por todas as igrejas (Gahal – Ekklesias) da 2ª Aliança, esse escriba optou por observar os acontecimentos de Brumadinho à luz do que escreveu Koelet. Aliás, o livro, que mistura o hebraico com aramaico, se intitula: “palavra de Koelet, filho de Davi, rei de Jerusalém”. É um livro com expressões e valores de outras culturas orientais, especialmente persas e egípcias.

Em seu aparente pessimismo, mas com profundo realismo, “o Eclesiastes” é crítico, lúcido e objetivo, sobre a condição do povo de Javé no século III aC. quando a Palestina estava dominada pela potência da época, a Grécia dos Ptolomeus, e os judeus estavam sem esperança para o futuro, sem horizontes.

Situação humana bem semelhante à dos moradores de Brumadinho, dos arredores do Paraopeba, do córrego do Feijão e por onde vem passando a avalanche de lama provocada pela ruptura da barragem da Vale. Além de solidários, torcendo para que o Velho Chico não seja atingido, estas populações têm todo o direito de ser críticas, lúcidas, realistas, objetivas e revoltadas face à proprietária da mineração, a Vale, e ao Poder de Estado, constitucionalmente responsáveis pelas devidas fiscalizações ambientais na construção e durante o processo produtivo da empresa.

Como o leite já foi entornado, ganha relevância agora o papel do Judiciário encarregado de analisar os fatos, detectar as vítimas, os responsáveis pelos crimes e puni-los.

Mas é preciso extrapolar de Brumadinho (de Mariana, Gongo Soco, Barão de Cocais, Nova Lima, Itatiaiuçu) para analisar toda problemática da mineração em Minas e no País – o risco permanente para a Nação.

Koelet fez questão de ir mais longe na abordagem das raízes da opressão que seu povo sistematicamente sofria. Soube encarar o sistema da sociedade, no seu todo, explicitando o significado da riqueza, do poder, da ciência, dos prazeres, dos status social, do “Trabalho” visando prioritariamente ou somente o lucro e os enriquecimentos excessivos.

A propósito, fica difícil nesse caso apelar para o “marxismo cultural” de um livro do século III aC. e da parte de um hagiógrafo, através do qual vaza um projeto revelado do alto, inspirado por Javé e seu Espírito (pelo menos na visão de quem crê). Um projeto visando à liberdade, a igualdade e a fraternidade: liberté, égalité et fraternité, como foi proclamado mais tarde pela Revolução Francesa.

“Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol”. Logo na abertura (O Eclesiastes 1,3), o autor dá o tom do que vai tratar em 12 capítulos. Ele ainda teve a possibilidade de falar do “trabalhador debaixo do sol” – mas em cima da terra.

Em Brumadinho, trabalho e trabalhador revelaram a triste realidade de funcionamento de um setor produtivo – a mineração. Só que o trabalho e os locais de trabalho foram varridos pela lama da tragédia. E o trabalhador aqui não é mais descrito “debaixo do sol”, mas debaixo da terra, tragados vivos pela lama.

Não passamos das primeiras considerações sobre Brumadinho, à luz do livro bíblico “O Eclesiastes” de Koelet, judeu oriental da Palestina, provavelmente de Jerusalém. Nos próximos artigos darei sequência ao tema.

*Jornalista, embaixador e anglicano (tildensantiago@gmail.com).