Nair Costa Muls*

O resultado das eleições é claro: dentre 147 milhões de eleitores, 57,6 milhões, ou seja, 39,1% elegeram o novo presidente. 46,7 milhões (=39,1%) votaram no seu opositor.

Foram registrados 2,5 milhões de votos em branco, 8,6 milhões de votos nulos e 31 milhões de pessoas se abstiveram (=21,30%). Ou seja, a maioria dos eleitores brasileiros não votou em Bolsonaro. Respeitou-se o resultado das urnas, como não podia deixar de ser num país que se quer democrático e o novo presidente tem legitimidade suficiente para governar.

No entanto, não representa a maioria da população brasileira, com toda a sua diversidade social, econômica, política, cultural e étnica; e boa parte dela tem consciência dos riscos que o seu governo trará para os avanços sociais conquistados e para a própria democracia.

Todavia, apesar da divisão acirrada pela propaganda eleitoral e tom claramente de extrema direita da fala do candidato e de suas propostas, é preciso reconhecer, em primeiro lugar, que nem todos os eleitores de Bolsonaro são de extrema direita (segundo pesquisas estatísticas esses representam 25% de seus eleitores). É uma faixa constituída por segmentos que sofreram na carne a crise econômica deslanchada – ou piorada, como querem alguns ─ pelo governo Temer, sem se aperceberem dos avanços propiciados pelos governos anteriores e que rejeitam tudo o que possa representar o petismo.

Sensibilizados e estimulados pelas bravatas do candidato, votaram contra a crise, por uma mudança econômica radical que reponha a economia brasileira nos trilhos. E votaram também por questões morais, rejeitando a corrupção, a liberação de costumes ou influenciados pelo discurso radical e violento do candidato contra as minorias. Mesmo no que concerne às instituições, se elas estão divididas e até mesmo com um comportamento que indica claramente uma partidarização dos poderes judiciários e uma judicialização da política, encontramos um grande número de juristas, juízes, advogados e mesmo policiais que prezam, respeitam, defendem e agem inspirados na democracia.

Nesse quadro, pode-se perguntar qual é realmente o poder efetivo de Bolsonaro. Algumas de suas propostas, concernentes, por exemplo, à sua política externa, já levantaram críticas e mesmo reações bastante fortes. Veja-se, dentro da posição defendida de alinhamento geral com os Estados Unidos, o seu palpite sobre a transferência da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém. Uma questão sumamente delicada, para os países árabes e para o Brasil. Como protesto a essa proposta, o governo do Egito cancelou a visita de assessores brasileiros ao Cairo. Entre parênteses, o Brasil é grande exportador para os países árabes ─ em condições especiais ─ de carne de porco e de frango produzidos pelo agronegócio brasileiro. A posição do novo governo não está sendo bem-vista pelo mundo árabe e pode nos trazer sérios problemas, tanto para o nosso agronegócio como para a nossa segurança.

Também a sua declaração de que a China está comprando o Brasil, ou a sua visita a Taiwan (que foi claramente criticada pelo governo chinês) levou a China a fazer uma advertência: “a orientação do novo governo brasileiro pode ser prejudicial ao Brasil, que seria o único a perder (…), pois se as exportações ajudaram a alimentar o rápido crescimento da China, também favoreceram o forte crescimento do Brasil”…

Ou ainda a declaração de que o Mercosul é secundário na política externa brasileira. Se é importante para o Brasil “negociar com o mundo”, como querem Bolsonaro e seu ministro da Economia, não se pode deixar de reconhecer a importância da parceria com países da América Latina, sobretudo com Argentina, Uruguai, Paraguai e mesmo Venezuela, onde os produtos industrializados brasileiros chegam em grande volume. Nesses contextos, pensando no custo Brasil ─ infraestrutura precária, carga tributaria elevada e burocracia aduaneira excessiva ─ , que dificulta a exportação de produtos manufaturados brasileiros para outros países, “descartar o Mercosul constitui uma atitude insana”, como bem lembra Milton Lourenço, presidente da Fiorde Logística Internacional, em DC 8/11/2018.

Por outro lado, as medidas até agora anunciadas também causam espécie. Sua primeira ação foi uma reunião com a embaixada dos EUA na expectativa de acordos na área militar, negociações comerciais e questões regionais. A escolha de seus auxiliares diretos também causa temor: a maioria não tem experiência nem com a máquina estatal, nem com o governo do Estado, são despreparados, tanto sem capacidade técnica e como sem capacidade política. Suas propostas de privatização de ativos e propriedades do Estado, de reestruturação dos ministérios e de reforma da Previdência, por exemplo, têm levantado sérias críticas. Agravadas ainda, com a designação de Moro para o Ministério da Justiça, com o objetivo determinado de implementar medidas anticorrupção e anticrime organizado, assegurando-lhe para isso um comando incontestável, além de lhe garantir o comando da Coaf – Conselho de Controle de Atividades Financeiras, que lhe possibilitará o controle de toda a vida econômica e financeira dos cidadãos e das empresas brasileiras. Além do mais, o perfil de Moro nos leva à certeza de que ele não será um simples coadjuvante, mas um forte e decidido protagonista, por isso mesmo, um componente altamente explosivo no seio do governo Bolsonaro, e, até mesmo, um possível concorrente, se nada der certo.

Um último, mas importante traço: a sua atitude em relação à imprensa se baseia num conhecido lema: para os amigos tudo, para os inimigos nada. Na medida em que anuncia como únicas fontes válidas de informação determinadas redes sociais, twiters e whatsApps (que, na verdade, fazem pura doutrinação), e condena determinados jornais, programas de TV e certos jornalistas, Bolsonaro está se afastando do princípio básico da democracia: um presidente eleito não pode tomar partido em relação aos veículos de informação. A imprensa tem que ser livre.

Estamos, portanto, diante de uma incógnita: na onda da extrema direita que se espalha pelo mundo, o governo Bolsonaro tem grande margem de manobra. Mas, felizmente, não se trata de uma tendência consolidada. Pode mudar… Lá e aqui, depende da resistência a ser oferecida.

* Doutora em Sociologia, professora aposentada da UFMG/Fafich