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ALEXANDRE HORÁCIO

É impossível assistir a um filme de Jacques Tati e não vislumbrar a “cumplicidade” estética entre o cineasta francês e Charles Chaplin. O Sr. Hulot, interpretado pelo próprio Tati em suas obras, é uma espécie de Carlitos à francesa, desajustado, simpático, engraçado e crítico. As semelhanças são muitas mas a sutileza e o fino humor são marcas indiscutivelmente pessoais do deboche social de Tati.

Maior sucesso comercial do diretor francês, “Meu Tio” (1958) é uma inspiradíssima comédia de costumes que confronta a dependência e o vazio da modernidade com a humanidade e a ternura dos hábitos simples de vida. Passados mais de 60 anos de seu lançamento, “Meu Tio” está cada vez mais atual. O consumismo da então incipiente automação na França, à moda norte-americana, é retratada no filme com crítica mordaz. Embora pareça rudimentar, o processo camufla a mesma essência da revolução tecnológica da era cibernética dos dias de hoje, com seus descalabros e distorções de sentido.

Poeticamente, “Meu Tio” começa como termina: um cachorrinho burguês, inclusive com roupinha xadrez, se junta a um bando de cachorros de rua para se divertir e desfrutar a liberdade pelas ruas de Paris. A metáfora se reproduz na relação do personagem que dá título ao filme e seu sobrinho entediado da vida supostamente moderna.

A diferença social é ironizada de forma implícita por Tati que debocha das convenções e dos comportamentos pré-estabelecidos por meio de trama e de personagens repletos de simbolismo. Sr. Hulot vive em num bairro pobre e antigo de Paris, enquanto sua irmã e cunhado vivem numa região moderna onde toda a arquitetura é geométrica e as funções da casa de estilo arrojado são automatizadas.

Os detalhes funcionais revelam o tratamento social que é dado a cada classe através de um objeto de pura ostentação burguesa. Um chafariz metálico em forma de peixe é ligado ou desligado conforme o nível social do visitante que chega à futurista residência da família.

Sugestivamente, o chafariz se torna um personagem inanimado do filme que denota a preocupação excessiva com a aparência de uma nova e cínica burguesia em ascensão na França do pós-guerra, que abandona o rico berço de sua cultura para embarcar nas facilidades alienantes do american way of life e se afogar nas armadilhas do desenvolvimento tecnológico desenfreado. A sequência das trapalhadas mecânicas do Sr. Hulot na fábrica de mangueiras de plástico do cunhado em “Meu Tio” faz, sem dúvida, uma bela, irreverente e hilariante homenagem ao clássico “Tempos Modernos”, de Chaplin.