CESAR VANUCCI *

“Os habitantes do mundo estão divididos entre os que viram e os que não viram o Taj Mahal.” (Edward Lear, poeta)

Traz algum conforto enfatizar: o mundo, apesar de tudo, comporta também maravilhas.

Pra começo, não são apenas sete. O número estipulado para catalogar as maravilhas deste mundo criado pelo bom Deus, transformado na pátria conturbada dos homens, obedece na verdade a uma regência cabalística. Levada muito a sério, afinal de contas, desde tempos imemoriais, pelas mais diferentes culturas. Cuidemos de enumerar algumas dessas maravilhas, obedecendo a classificação “antigas” e “modernas”.

Seja como for, indiferente ao saboroso dito popular de que sete é conta de mentiroso, multidão incalculável de viventes faz uso constante desse número, acreditando fervorosamente em sua origem oracular, para mensurar, pesar, contar, analisar feitos e estipular causas, avaliar seres, circunstâncias e coisas. Tudo, tudo, na tentativa de decifrar, por prisma mágico, os questionamentos e perplexidades suscitados amiúde na caminhada pela pátria dos homens.

Em consulta mundial em tempos recentes, via internet, promovida a partir de Portugal, foram em número de vinte as concorrentes às “sete maravilhas modernas”.

A lista abrangeu a pirâmide de ChichenItzá, situada na península de Yucatan, México; o nosso Cristo Redentor, no topo do Corcovado; o Coliseu, principal símbolo do extinto Império Romano; a “Grande Muralha”, com seus 7,5 mil quilômetros esparramados pelas cadeias montanhosas da China; Machu Picchu, no Peru; a indecifrável Petra, no meio do deserto jordaniano; Taj Mahal, o belíssimo edifício-mausoléu plantado em Agra, Índia – as escolhidas. E mais: Acrópole, edificação emblemática da civilização grega; Alhambra, construção mourisca localizada em Granada, Espanha; Angkor, gigantesca cidade edificada na selva cambojana ao tempo do Império Khmer; Estátuas da Ilha de Páscoa, Chile; Torre Eiffel, Paris; Basílica de Santa Sofia, Istambul, Turquia; Templo Kiyomizu, Japão; Kremlin e Praça Vermelha, Moscou, Rússia; Castelo de Neuschawanstein, Alemanha; Estátua da Liberdade, Estados Unidos; Stonehenge, na Inglaterra; Ópera de Sidney, Austrália; Timbuktu, Mali.

Das 13 que não foram apontadas pela “vontade das urnas”, todas merecem figurar, sem dúvida, entre as manifestações mais grandiosas da cultura de todos os tempos. Mas há, ainda, no mesmo patamar da lista das vinte maravilhas selecionadas, outro tanto de criações, monumentos e marcos, nascidos da criatividade humana que, pela fulgurância ostentada, estampam cenários permanentes de embevecimento e assombro.

Caso de citá-los. Consideradas à parte as portentosas Pirâmides do Egito, remanescentes das “sete maravilhas do mundo antigo” – ao lado do Colosso de Rodes, Estátua de Zeus, Farol de Alexandria, Jardins Suspensos da Babilônia, Mausoléu de Helicarnasso e Templo de Artemis -, podem também ser incluídos, sem favor algum, na relação das maravilhas, vários outros complexos arquitetônicos egípcios, numerosas pirâmides mexicanas, pirâmides guatemaltecas e de outros países da América Central. Bem como, ainda, o conjunto de edificações de Tihuanaco, Bolívia, muitas outras colossais construções peruanas, exemplo de Sacsayhuaman, Ollantaytambo, sem falar na obra fantástica de engenharia constituída pelo represamento do rio Urubamba, no Vale dos Reis, região de Cuzco.

Não há como esquecer, nesta linha de evocações das maravilhas, as pistas incríveis de Nazca, também no Peru, a “Cidade Proibida”, em Pequim, a Basílica de São Pedro, no Vaticano. E mais: as obras primas da Renascença em Florença e Veneza, os museus de São Petersburgo e Paris, um punhado de castelos medievais europeus. Voltando à Índia, muralhas, castelos, cidades inteiras como Fort Amber, Fort Agra, Purana Qila.

Nas proximidades do Taj Mahal um conjunto de edificações milenares chega mesmo, segundo confiáveis fontes indianas, a suplantar a grandiosidade do próprio santuário brotado da paixão do califa autor do gesto mais famoso da história de veneração a uma mulher amada. Infelizmente, permanece interditado aos turistas por razões de segurança. Noutra região indiana, não inserida nos circuitos turísticos tradicionais, deparamo-nos com estupendo complexo arquitetônico na mesma linha do “Taj”. É o “DelwaraJainTemples”, cinco santuários em mármore de beleza indescritível.

Encurtando razões. Somam dezenas, talvez centenas, as maravilhas deste mundo de sempre, espalhadas por aí, para a constante admiração deste enigmático bípede implume que, paradoxalmente, tanto é dado a produzir belezas quanto a promover malvadezas.

  • Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)