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Paris é fundamental na obra do escritor carioca Marco Guimarães. Há dez anos, ele divide a vida entre a Cidade Maravilhosa e a capital francesa, cenário de três de seus quatro romances. E Paris ainda ajuda o brasileiro a “salvar os dias que vivemos hoje no Brasil, mas não entendemos”.

Marco Guimarães, que é professor de medicina aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), começou a escrever crônicas em 1997. Ele tem quatro romances publicados no Brasil. “Um escritor e seu fantasma em Paris”, de 2007, “Meu pseudônimo e eu”, de 2012, publicado pela Octavo, e “O estranho espelho do Quartier Latin”, de 2016, pela Atlântica, são ambientados na capital francesa. Por enquanto, a única exceção é a “A bicha e a fila”, romance escrito a quatro mãos com o escritor angolano Manuel Rui e que se passa entre o Rio e Luanda.

Ao invés da questão por que Paris inspira a sua literatura, Marco Guimarães prefere a pergunta por que Paris o escolheu? Para responder, ele cita o italiano Umberto Eco: “Nós autores não somos um fonte inesgotável dos significados que estão dentro de uma obra. Não há uma intencionalidade para escrever aquilo que escrevemos. Eu fiz uma digressão (dessa afirmação do Eco) e acho realmente que também não escolhemos, que não há intencionalidade na escolha da ambiência para escrever o seu romance. É por isso que digo que é a cidade que nos escolhe”. Mas a história cultural literária e cultural ajuda: “Cada pedrinha de Paris parecer respirar literatura. Ainda que as coisas tenham mudado um pouco, aquela história dos séculos 19 e 20, dos grandes escritores, ainda persiste.”

E entre todos os bairros de Paris, Marco Guimarães prefere o histórico Quartier Latin, onde os personagens criados pelo carioca vivem e perambulam, entre vivos e mortos. “Eu moro no Quartier Latin. Realmente, há muitas histórias no bairro, inclusive a de uma bruxa que lá viveu no século 17, parece. Talvez seja por isso que meus livros estejam muito ambientados dentro do realismo fantástico.”

Nos romances parisienses de Marco Guimarães o real e irreal estão sempre presentes, levando o leitor a hesitar entre realidade e fantasia. Em uma história, um jornalista racional vê três imagens de seu rosto no espelho e começa uma investigação que o leva a uma trajetória inesperada. Em outra, um escritor vê seu romance sendo lançado por um impostor e cruza com os personagens que inventou na fila de autógrafos.

Após o quarto romance “O estranho espelho do Quartier Latin”, Guimarães começou a escrever a trilogia “O corvo”, cujo primeiro livro “Le corbeau” (Amazon-Europa) foi publicado em 2017 na França e no Brasil. O segundo livro da trilogia “O portal” (edição do autor) foi lançado no Brasil e na plataforma de edição impressa da Amazon Europa em 2018. O terceiro livro da trilogia “O véu” encontra-se em finalização. A partir da próxima semana, sempre aos sábados, publicaremos, à página 3 (Opinião), capítulos dessa trilogia, começando com “O corvo”. Marco Guimarães foi colaborador, entre 2016 e 2017, do DIÁRIO DO COMÉRCIO escrevendo crônicas semanais.