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TILDEN SANTIAGO *

A Semana Santa passou, mas o ciclo litúrgico pascal continua até Pentecostes, que é sua sequência e complementação natural. Inúmeros são os fatos, ensinamentos, reflexões, meditações, revelações, que emanam daquela Semana tão rica espiritualmente, fazendo transbordar nossa fé, nosso coração, nossa sensibilidade humana, nossa esperança, nosso amor (agapé) a partir da Cruz e do Sepulcro Vazio. (Mateus, 26 a 28; Marcos 14 a 16; Lucas 19 a 24 e João 11 a 21).

O fraco de Jesus, na sua vida inteira, foi curar doentes, cativar discípulos e formá-los, comungar permanentemente com seu Pai, enaltecer a humildade, a ternura, a misericórdia, o perdão, inclusive para os inimigos, e vivenciar o Amor – fazendo dele o epicentro de sua mensagem e dando-lhe uma dimensão salvífica universal para com todos os viventes mortais, mas com um olhar diferenciado, especial para os pobres, os pequenos, (Lucas 9, 46 a 48 e 22,24 a 27) os humildes, os oprimidos e excluídos, os abandonados, os fatigados, os sobrecarregados, o órfão e a viúva, os que choram e os que padecem, os prisioneiros e torturados, as crianças, os pecadores e pecadoras, as mulheres tão vilipendiadas pela cultura machista dos semitas e outras, o ser humano que sente, em seu íntimo, a contingência de ter de sofrer e de morrer.

É esse o “Cordeiro de Deus sacrificado” (João 1,29) pela Redenção da Humanidade e pela Restauração de toda a Criação, que sofre dores de parto, na visão do apóstolo Paulo.

Yeshua, na medida que foi crescendo em Nazaré, na Galiléia, (Lucas 2,39s) após a volta do Egito, foi ganhando maior consciência de quem Ele era e de sua missão como Redentor, como Libertador, como Salvador. Ele, o “Carpinteiro” de Nazaré, (Marcos 6,1) o Profeta da Justiça, o Messias dos Pobres, o Apóstolo da Alegria – da Boa Nova, o Servo Sofredor de Isaías, (Isaísas 42) sem aparência humana, angustiado no Jardim das Oliveiras, no Getsemani, julgado, condenado, torturado, crucificado, sepultado, Ressuscitado.

Dois momentos a serem memorizados se destacam na celebração da Páscoa por revelarem as dimensões mais profundas da mensagem e da pessoa de Yeshua de Nazaré: tudo o que aconteceu e foi dito em torno da mesa, do pão e do vinho na quinta-feira e as Sete Palavras balbuciadas por Ele no lenho da Cruz, na Sexta-feira da Paixão.

No primeiro momento: 1) o lava-pés enaltecendo a humildade e o serviço; 2) o mandamento do Amor – “nisso reconhecerão que sois meus discípulos”; 3) o anátema dos poderosos que governam e mandam com autoritarismo, falsos benfeitores, senhores do Poder e do Dinheiro, seja na lida política, seja na religiosa (Lucas 9,46 a 48 e 22,24 a 27); 4) o Serviço e a Política como Serviço da parte daqueles que quiserem seguir a Jesus; 5) o sacramento da Eucaristia e da Consagração Sacerdotal.

O segundo momento é das Sete Palavras na Cruz:

1) “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (palavras dirigidas aos algozes romanos e judeus – misericórdia sem limites no trato com os inimigos);

2) “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” – dirigida ao ladrão Dimas, que pediu para ser lembrado no Reino d’Ele – roubou o céu no último momento de vida, como escreveu o jesuíta Antônio Vieira;

3) “Mulher eis ai teu filho – discípulo eis ai tua Mãe” – olhando para Maria, sua Mãe, e João, o discípulo amado;

4) “Eloi, Eloi, lama sabactâni – Senhor, Senhor porque me abandonaste” (oração dirigida a seu Pai);

5) “Tenho sede – sitio” (esponja de vinagre para matar a sede do torturado sedento);

6) O grande grito – “Tudo está consumado” (consumado para o Eterno que não se consuma nunca);

7) Outro grito: “Pai nas tuas mãos entrego meu espírito” (Lucas 23,46 João 19, 30 Mateus 27,50 e Marcos 15,37).

É daí que vai nascer a igreja de Jesus, que será fortalecida pelo Espírito Santo em Pentecostes. É uma tônica do pensamento teológico de todas as igrejas, principalmente da Romana, afirmar que fora da igreja não há salvação – “extra Ecclesiam, nulla salus”.

Mas não foram poucos os profetas, revolucionários e místicos que, no decorrer da história, também afirmaram, após meditarem nos quatro evangelhos, que fora dos pobres não há salvação – “extra Pauperes nulla salus” (Francisco de Assis, Charles de Foucauld, Vicente de Paulo, João Bosco, Santa Teresa, Madre Teresa de Calcutá, João XXIII, Papa Francisco e outros).

A Páscoa continua na fé, no coração e nos lábios daqueles que ainda ousam seguir Yeshua de Nazaré da Galiléia, o Servo de Javé (Isaías 42 e 53).

*Jornalista, embaixador, anglicano