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ROGÉRIO FARIA TAVARES *

Naquela noite, Paulo demorou mais que o habitual para chegar em casa. A dois quarteirões de seu prédio, esbarrou, sem querer, em uma mulher que passava apressada, sem prestar atenção, entretida pelo celular. Pediu desculpas. Ela levantou os olhos verdes e sorriu. Era Daniela, colega de escola que ele não via há mais de década. Depois dos cumprimentos de praxe e das rememorações dos tempos do colégio, falaram de outros assuntos.

A conversa fluiu. ‘Ela está bonita’, pensou o dentista, desviando o olhar da morena, como se ela pudesse ler sua mente. ‘Ele continua um gato’, a moça falou, para si mesma, os lábios entreabertos. Quando seu telefone tocou, Paulo se atrapalhou para atendê-lo, quase deixando o aparelho cair no chão. Era a esposa, perguntando se ele ainda demoraria. ‘Não, já estou quase aqui na porta. Subo em cinco minutos’. Antes de se despedir da amiga, resolveu pedir o seu contato. ‘Para não te perder de vista. Quem sabe não combinamos de sair junto com as crianças?’ Daniela era casada e tinha, como ele, dois filhos. ‘São gêmeos, você precisa ver que graça. Heitor e Tomás. Adoro esses nomes. Me passe seu número também’.

Na manhã seguinte, Paulo acordou agitado, absorvido pelas imagens da médica. Daniela era intensivista. Trabalhava no Samu. Sua vida era correr para lá e para cá dentro de uma ambulância, pronta para atuar em situações de emergência. Uma vida estranha, radicalmente oposta à dele, que ficava horas trancado no consultório, quase imóvel, vendo gente de boca aberta, sem falar. Olhando para a tela do celular, flertou com a possibilidade de ligar para a moça. ‘Foi tão legal te ver ontem. Vamos pensar naquele passeio com a meninada?’ Mas não teve coragem. Seria precipitado, com certeza. Passou a manhã aflito, querendo que os dias corressem, que o relógio se adiantasse, que qualquer mágica acontecesse para que pudesse ouvir de novo a voz de Daniela. E para que pudesse ver os seus olhos verdes, e os seus lábios entreabertos…

Qual não foi a sua surpresa quando, pouco depois do almoço, recebeu uma mensagem de whatsapp de Daniela. Decorada por emoticons, falava da alegria de revê-lo, depois de tantos anos, e perguntava se Paulo gostaria de sair para um café, amanhã, depois ou, se fosse melhor, naquela tarde mesmo. ‘Tenho três dias de folga. Depois, vai ser mais difícil…’ Desconcertado, o dentista abriu a agenda, na esperança de que fosse fácil remanejar os pacientes. Viu que a tarefa era complexa. Seu raciocínio começou a embolar. Os olhos verdes, os lábios… Num segundo, tomou a decisão. Mandou a secretária cancelar todos os atendimentos e respondeu a colega. Marcaram o café para as cinco da tarde. Paulo sugeriu um lugar discreto, afastado do burburinho da cidade. Daniela não contestou. ‘Sei bem onde fica’, respondeu, confirmando presença.

Teria três horas até o horário combinado. Era preciso ser rápido e objetivo. Sem reconhecer-se, foi até a um bairro bem próximo ao lugar do encontro. Em uma loja que lhe pareceu aceitável, comprou meias e cuecas novas. Na farmácia, adquiriu tudo o que julgava imprescindível às circunstâncias. Por sorte, encontrou um hotel adequado aos seus planos. Ocupou um quarto. Tomou um banho quente, longo e demorado. Fez a barba. Escovou os dentes. Passou fio dental e o enxaguante bucal mais potente. Olhou-se demoradamente no espelho. Conferiu as marcas no rosto, os vincos na testa. Lembrou-se da juventude, especialmente do dia em que conhecera a esposa, junto a quem sempre havia se sentido à vontade, feliz, em paz. Em conflito, sentiu o coração acelerar-se. Amava Letícia. Estava perplexo e surpreso consigo mesmo. Jamais se julgou capaz de fazer nada que pudesse magoá-la. E agora aquela loucura. Pensou em desmarcar tudo e voltar para o consultório. Mas os lábios…

No auge da tensão, resolveu pagar para ver. Saiu atrasado. Atravessou a rua descuidado, correndo na direção da cafeteria. Ainda conseguiu acenar para a morena, já instalada numa das mesas do local. O motorista fugiu em disparada, sem prestar socorro. Daniela agiu imediatamente, executando todos os procedimentos necessários para reanimá-lo, os olhos verdes em desespero, os lábios entreabertos, a respiração ofegante. Não houve tempo.

  • Jornalista. Presidente da Academia Mineira de Letras