Créditos: REUTERS/Sergio Moraes

A Petrobras perdeu R$ 32 bilhões em valor de mercado após a o presidente Jair Bolsonaro interferir diretamente na política de preços praticados pela companhia. A medida causou preocupação em relação à independência da estatal e contaminou o mercado de capitais e o Ibovespa, principal índice acionário do País, recuou 1,98% na sexta-feira.

A Petrobras anunciou na tarde de quinta-feira um reajuste de 5,7% no preço do diesel a partir de sexta-feira. Porém, no final do dia a estatal voltou atrás e logo vazou a informação sobre a pressão de Bolsonaro em função do risco de uma nova greve dos caminhoneiros.

A notícia não foi bem aceita pelos investidores e o índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa recuou para 92.875,00 pontos. O volume financeiro totalizou R$ 20,56 bilhões, bem acima da média diária do ano, de R$ 16,2 bilhões. Na semana, o Ibovespa acumulou declínio de 4,36%.

O noticiário envolvendo a Petrobras dominou os holofotes no último pregão da semana, após a empresa desistir de elevar o preço do diesel nas refinarias a partir desta sexta-feira após sofrer interferência de Bolsonaro, em meio a preocupações com uma eventual nova greve de caminhoneiros.

Bolsonaro defendeu nesta sexta-feira “um preço justo” para o combustível e disse que quer ser convencido pela estatal sobre a necessidade do aumento.

“Os investidores foram pegos de surpresa com a ‘canetada’ do Bolsonaro. Todo o discurso de estatais sem interferência política se perde”, destacou Pedro Menezes, membro do comitê de investimento de ações e sócio da Occam Brasil Gestão de Recursos, destacando que o mercado como um todo foi contaminado.

“O grande foco continua a ser na reforma da Previdência, mas essa situação não ajuda em nada o sentimento do mercado”, disse.

Analistas do BTG Pactual divulgaram relatório com o título ‘Déjà Vu’, citando que é preciso saber se foi uma decisão temporária por motivação política, como evitar uma nova greve, ou mudança na forma como o governo percebe a liberdade operacional da empresa.

A sexta-feira também teve de pano de fundo a proximidade com o vencimento de opções sobre ações, que acontece na segunda-feira na bolsa paulista e tem os papéis da Petrobras entre as séries mais líquidas do exercício.

O tombo dos papéis da petrolífera blindou o pregão brasileiro do viés externo benigno, com desempenho positivo em Wall Street na esteira de resultados corporativos, bem como alta nos preços de commodities (petróleo e minério de ferro), enquanto o dólar recuou perante outras moedas globais.

Desempenho – Petrobras ON desabou 8,54% e Petrobras PN caiu 7,75%, resultando em uma perda equivalente a R$ 32,4 bilhões no valor de mercado da companhia.

A empresa cancelou alta de 5,7% no valor do diesel a partir desta sexta-feira, mantendo a cotação em R$ 2,1432 por litro, praticada desde 22 de março.

A desvalorização foi a maior queda das ações da companhia desde 1º junho do ano passado, quando o então presidente-executivo da companhia, Pedro Parente, pediu demissão. (Com informações da Reuters)

Governo e CEO da estatal se reúnem na terça

Brasília – O presidente Jair Bolsonaro chamou uma reunião na próxima terça-feira com os ministros de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco e técnicos da área para discutir a política de reajustes da Petrobras, disse na sexta-feira o porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros.
Segundo o porta-voz, Bolsonaro considera que “por princípio” a Petrobras não deve sofrer interferência política em sua gestão.

“No entanto em face do impacto do ajuste anunciado, ele recomendou aguardar a implantação e convidou ministros da área e equipe técnica da Petrobras para comparecer na terça no Planalto para discutir aspectos técnicos da decisão”, afirmou.

Rêgo Barros disse ainda que não está definido se o reajuste será autorizado na reunião de terça-feira e, se houver necessidade de novos esclarecimentos, essa decisão pode ser adiada.

Demonstrando irritação, o porta-voz repetiu várias vezes a frase “o presidente entende que a Petrobras é uma empresa de capital aberto sujeita às regras de mercado e não deve sofrer interferência política em sua gestão”.

Questionado sobre a decisão do presidente de discutir a política de reajustes da estatal, Rêgo Barros afirmou que antigamente não se discutia, mas “se impunha”.

“É diferente. O presidente Jair Bolsonaro não impõe, ele discute, ele busca as informações”, afirmou, ressaltando mais uma vez não se tratar de uma interferência. “Caracteriza a necessidade do dirigente do Poder Executivo de identificar quais são os aspectos que levam tecnicamente estas decisões que são tão importantes para a sociedade.”

Ao chegar de Macapá, onde havia defendido sua decisão, o presidente convocou uma reunião com os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Fernando Azevedo (Defesa), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Gustavo Canuto (Desenvolvimento Regional), Floriano Peixoto (Secretaria-Geral) e Carlos Alberto Santos Cruz (Secretaria de Governo).

Ficou acertado que, na segunda, a Casa Civil irá coordenar uma reunião interministerial sobre a política de combustíveis, preparatória para a reunião na terça com Bolsonaro.

“Tranquilo” – Apesar da perda de R$ 32 bilhões em valor de mercado, internamente o governo minimizou o impacto e a avaliação foi de que “segunda tudo se recupera”. De acordo com uma fonte palaciana, apesar do susto com a queda das ações da estatal na bolsa, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, considerou que as oscilações são normais e que tudo estava “tranquilo”.

Mais tarde, o próprio porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, previu uma recuperação da empresa depois de terça-feira, quando Bolsonaro irá se reunir com ministros e o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, para “conhecer” a política de reajuste da empresa e, segundo o próprio presidente, ser “convencido” sobre a necessidade do reajuste.

“Nós vamos evoluir para retomarmos o voo de forma bastante sustentável a partir da próxima terça-feira, em decisões posteriores do governo”, disse o porta-voz ao ser questionado sobre a avaliação do governo sobre as perdas da Petrobras. (Reuters)