Neste ano a safra brasileira atingiu o recorde de 60 milhões de sacas - REUTERS/Roberto Samora

São Paulo – A safra de café do Brasil no próximo ano deve apresentar problemas de qualidade após diversas floradas nos últimos meses, o que sinaliza grãos sem uniformidade no momento da colheita, com frutos maduros e verdes, disse o presidente da Cooxupé, Carlos Paulino. A cooperativa já recebeu neste ano mais de 10% da produção do País.

Isso poderia adicionar pressão a um ciclo que já será de menor produção, dada a bienalidade negativa do arábica, principal variedade de café cultivada no País. Em 2018, o Brasil colheu um recorde de quase 60 milhões de sacas, conforme dados do governo, que por ora não tem estimativas para o ciclo seguinte.

Chuvas regulares e em bons volumes têm evitado qualquer estresse hídrico nos cafezais do país, o maior produtor e exportador global da commodity. Se por um lado impedem perdas de safra, por outro tais precipitações vêm estimulando a ocorrência de mais floradas, o que resulta em grãos em diversos estágios de desenvolvimento.

“Isso vai afetar a qualidade. No ano que vem, se começar a colher cedo, vai ter café maduro e café verde. Se começar mais para frente, vai ter café maduro e café no chão”, afirmou Carlos Paulino.

“O produtor não vai esperar, porque precisa de dinheiro, então vai começar a colher e vai ter café bom e café verde, que é mais depreciado”, acrescentou o presidente da Cooxupé, profundo conhecedor do setor, tendo dedicado boa parte de sua vida à cooperativa, que faturou R$ 3,7 bilhões em 2017.

O café verde resulta em grãos menos valorizados em termos de aspecto, tipo e bebida. De outro lado, a obtenção da máxima qualidade está diretamente relacionada à quantidade de frutos maduros nos lotes, que assim acabam sendo mais valorizados.

A maioria dos produtores do Brasil, por questão de custos com mão de obra, não tem como fazer colheita seletiva, ainda mais com o avanço da mecanização do processo nos cafezais.
Paulino disse ainda que as várias floradas também dificultam estimativas de safra neste momento – a colheita do arábica, variedade cultivada na área da Cooxupé – só começa no segundo trimestre.

“Há a percepção de que alguma coisa vai acontecer”, disse o presidente da Cooxupé, acrescentando que até agora a maior cooperativa de café do mundo ainda não conseguiu traçar projeções para 2019. “O pessoal está muito perdido.”

O cenário de agora é o inverso daquele visto há um ano. O próprio presidente da cooperativa chegou a dizer que a falta de chuvas entre setembro e outubro de 2017 prejudicou as floradas, com abortamento e desfolha dos cafezais. A produção em 2018, contudo, acabou sendo recorde.

Conforme Paulino, até o momento os cafeicultores da cooperativa têm realizado os tratos culturais adequadamente, com vendas de fertilizantes e defensivos dentro da normalidade, apesar de um ano marcado por baixos preços do café no mercado internacional.

“O preço foi menor, mas a safra foi maior, então o total de dinheiro que ele obteve não ficou muito diferente do que esperava”, comentou.

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Novo governo – Paulino também disse ver com bons olhos o governo de Jair Bolsonaro (PSL), que assume em 1º de janeiro, incluindo as indicações do presidente eleito para os ministérios, sobretudo o da Agricultura. A pasta será ocupada pela deputada Tereza Cristina (DEM-MS), atual presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). (Reuters)