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O boletim Focus divulgado ontem pelo Banco Central (BC) aponta que a estimativa do mercado financeiro para o crescimento da economia do País em 2019 sofreu a 16ª redução consecutiva e, pela primeira vez neste ano, ficou abaixo de 1%. A projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 1% para 0,93% e a expectativa das instituições financeiras para 2020 é que a economia tenha crescimento maior, porém, a previsão para o ano que vem também foi reduzida, de 2,23% para 2,20%.

O economista-chefe da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio-MG), Guilherme Almeida, explica que o resultado do PIB reflete a falta de confiança dos agentes diante da conjuntura econômica. A aprovação da reforma da Previdência, segundo ele, tende a influenciar o componente da confiança justamente por ser objeto de expectativa desses agentes econômicos e, assim, pode proporcionar uma retomada de forma mais contundente da economia do País.

“A pauta de reformas é o mote desse governo desde as eleições. No entanto, a cada mês que passa essas reformas não são sinalizadas para o mercado, o que gera uma queda na confiança, principalmente de empresários e investidores. A aprovação da reforma da Previdência vai demonstrar um comprometimento do governo federal quanto às contas públicas e à situação fiscal e essa sinalização é importante para o mercado”, afirma Almeida.

No entanto, o economista da Fecomércio-MG ressalta que, por atingir diretamente o ânimo do mercado e o fator confiança, que precede as tomadas de decisão, os efeitos da reforma da Previdência devem ser sentidos no médio prazo. Portanto, a reforma tributária também é essencial para o desenvolvimento de investimentos produtivos, especialmente por estar relacionada a um entrave estrutural da economia brasileira que gera um gargalo para a economia do País em termos de competitividade.

“A carga tributária do Brasil é elevadíssima e não se traduz necessariamente em serviços públicos de qualidade. Essa é uma reforma também necessária para destravar investimentos e auxiliar no planejamento de atuação por parte de investidores tanto nacionais quanto estrangeiros”, disse.

Efeito – A redução das projeções de crescimento do PIB também é consequência da piora da confiança dos agentes econômicos na análise do professor do MBA da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Robson Gonçalves. Ele avalia que o único efeito de curto prazo que a reforma da Previdência pode causar é melhorar o ânimo de investidores e consumidores.

“Mesmo com um impacto positivo sobre o ânimo de consumidores e empresários, o PIB não vai crescer mais do que o previsto, uma vez que esse resultado também está relacionado à insegurança do cenário eleitoral que contaminou o primeiro semestre desse ano e a um conjunto de incertezas políticas preservado no atual governo”, comenta.

Uma reforma tributária que onere menos a produção e o aumento da flexibilidade do mercado de trabalho por meio da reforma trabalhista são fundamentais para a retomada do crescimento econômico do País na avaliação de Gonçalves.

“Estamos atrasados nas condições para a atração de investimentos. Nossa estrutura tributária tem impostos como ICMS e IPI, instituídos na década de 60 e preservados até hoje, além de algumas regras trabalhistas que são da década de 40”, destaca.

Pós-reforma – Para o economista e coordenador do curso de Administração do Ibmec, Eduardo Coutinho, uma avaliação mais precisa do cenário econômico brasileiro só poderá ser feita após a aprovação da reforma da Previdência no Congresso. Ele ressalta que, ainda assim, muitas outras ações devem ser tomadas para alterar o quadro atual.

“Não basta pensar na reforma da Previdência como uma solução mágica. No entanto, ela abre espaço para expectativas de que a trajetória da situação fiscal do governo vai mudar no longo prazo e, consequentemente, isso cria uma segurança maior de um futuro estável”, pontua.

Com expectativa de uma maior movimentação na economia no início de 2020 caso a reforma da Previdência seja aprovada até o mês de julho, Coutinho aponta que a aprovação da MP da Liberdade Econômica e o avanço na questão da reforma tributária também são necessários.

“É preciso simplificar o sistema tributário brasileiro e sinalizar uma queda na carga tributária para o futuro. O pacote anticrime pode ajudar a diminuir a corrupção e a violência nas ruas e criar um ambiente mais favorável para os negócios”, conclui.

Mercado estima corte da Selic em setembro

São Paulo – O mercado reduziu com força a expectativa para a taxa básica de juros neste ano após 18 semanas de estabilidade, ao mesmo tempo em que passou a ver crescimento econômico abaixo de 1% em 2019 pela primeira vez.

A pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central ontem mostrou que a estimativa agora é de que a taxa básica Selic termine este ano a 5,75%, uma forte redução ante estabilidade no atual patamar de 6,5% vista antes.

Os economistas consultados passaram a ver três cortes seguidos de 0,25 ponto percentual na Selic, em setembro, outubro e dezembro.

O cenário para 2020 também apresentou redução na estimativa para os juros, a 6,5% de 7% no levantamento anterior.

Com isso, as perspectivas para o mercado como um todo se alinham às do Top-5, grupo dos que mais acertam as previsões, que também baixou a conta para a Selic este ano a 5,75%, de 6,5%, mantendo a perspectiva para 2020 em 6,5%.

Para a inflação, a alta do IPCA em 2019 passou a ser calculada em 3,84%, de 3,89% antes, com os investidores mantendo a expectativa de avanço de 4% no próximo ano. O centro da meta oficial de 2019 é de 4,25% e, de 2020, de 4%, ambos com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou menos.

Iace – O Indicador Antecedente Composto da Economia Brasileira (Iace), medido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), recuou 0,9% de abril para maio deste ano. Com isso, o indicador, que busca antecipar tendências econômicas, atingiu 116,1 pontos, em uma escala de zero a 200 pontos.

O Iace é calculado com base em oito componentes que medem a atividade econômica no Brasil, entre eles o Ibovespa (índice da B3) e os índices de expectativas da FGV. Cinco componentes tiveram queda em maio.

Outro índice, o Indicador Coincidente Composto da Economia Brasileira (ICCE), que mede as condições econômicas atuais, por outro lado, teve alta de 0,7%, passando para 103,8 pontos em maio. (Agência Brasil/Reuters)