Nos anos 30 e 40, o fascismo e a Segunda Guerra Mundial envolveram o mundo em trevas, já que extrapolou da Alemanha, Itália, Japão, Espanha e Portugal. Após a guerra, em meados dos anos 40 veio o “ciclo’’ da reconstrução democrática de uma humanidade esfolada por um autoritarismo fascista. Este “ciclo’’, apesar de seu significado histórico acabou mergulhando o mundo nas sombras da guerra fria e do Stalinismo – que tentou sem democracia e liberdade se opor `as investidas do capitalismo - Foto: Divulgação/Acervo Histórico

Tilden Santiago*

Li com atenção e carinho fraterno o artigo “O fenômeno Bolsonaro’’ (neste DC: 15 a 19/11), de Nair Costa Muls, socióloga e professora da UFMG – cientista social e política, com vivência na Bélgica e na África nos anos 60, além do Brasil. Uma leitura indispensável de quem deseja entender o atual momento político do País. “Fenômeno’’ (phainómenon) logo no título chama a atenção do leitor, dada a pluralidade de sentidos do termo grego. Ele surgiu nas águas do Kantismo (1724-1804) e iluminou o sistema filosófico de Edmund Hussel (1859-1938). No senso comum, poderá significar: “pessoa que se distingue por algum talento extraordinário’’. Lendo o texto de Nair e conhecendo-a, sei que prevalece outro significado para o termo fenômeno: “fato de natureza moral, social ou política, passível de observação científica. ’’ O que permitiu`a autora analisar com propriedade palavras e iniciativas do presidente eleito, que revelam o risco de resvalarmos para um processo conservador e convidar nossos leitores a um “alerta vigilante’’, a uma possível “resistência’’, diante da incógnita sobre nosso futuro de Nação democrática.

Algumas modestas reflexões, após a leitura do texto de Nair: A vida de um indivíduo ou de um coletivo humano é desdobramento de “ciclos’’ que se sucedem. E nem sempre é fácil a passagem de um “ciclo’’ para outro.

Nos anos 30 e 40, o fascismo e a Segunda Guerra Mundial envolveram o mundo em trevas, já que extrapolou da Alemanha, Itália, Japão, Espanha e Portugal. Após a guerra, em meados dos anos 40 veio o “ciclo’’ da reconstrução democrática de uma humanidade esfolada por um autoritarismo fascista. Este “ciclo’’, apesar de seu significado histórico acabou mergulhando o mundo nas sombras da guerra fria e do Stalinismo – que tentou sem democracia e liberdade se opor `as investidas do capitalismo.

Um terceiro “ciclo’’ vai durar até a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética e do socialismo real, abrindo espaço histórico para o capitalismo nadar de braçada e colocar as raízes do neoliberalismo com uma expansão inédita das multinacionais e acumulação da riqueza numa sociedade incapaz de dar solução `as crises cíclicas da economia, que assolam especialmente os continentes pobres e as classes populares.
No prolongamento do terceiro, surge e se expande a globalização, como quarto “ciclo’’, que se desdobra crítico da mundialização, sob pretexto de defender cada Nação. Só que essa reação`a globalização se dá na esteira de um conservadorismo social, cultural, retrógado e autoritário, contra “refugiados’’ e seus países periféricos. Muito longe de ser um caminho rumo `a internacionalização de nações solidárias, vigorosas, com seus povos redimidos. Basta olhar para Trump, a Europa, a Inglaterra do Brexit, Filipinas, Turquia e outros, para perceber o momento atual.

É no contexto desse “ciclo’’ que surge o Bolsonarismo. A referência aos “ciclos’’ nos ajuda a entender melhor o seu significado e problemas demonstrados no artigo de Nair, mostrando palavras e ações do presidente eleito.

O professor, filósofo, José Arthur Giannotti nos convida a esperar que as iniciativas políticas sejam diferentes da retórica de campanha e pós-eleitoral. Inch Allá! O que não impede de se perceber os equívocos, no mínimo, já desenhados pela nova política externa. As “forças ocultas’’ em torno de Bolsonaro não mostram tendência a uma flexibilização, uma vez no poder ou no governo como pensa Giannotti. Esse escriba concorda mais com a cientista social mineira do que com o filósofo paulista na análise do fenômeno Bolsonaro. É que Nair, além de cientista social e política, carrega uma trajetória de vida e de luta, a partir de uma conversão política e espiritual, através da Juventude Universitária Católica (JUC) e da Ação Popular (AP). Os “ciclos’’ da vida enriqueceram, afinal, também sua visão de mundo.

* Jornalista, embaixador e militante