Há um agravamento da crise de pessoas forçadamente deslocadas ou refugiadas na América Latina e, por consequência, no Brasil. Apesar de não ser o estado brasileiro que mais recebe refugiados, a última contabilização somou 183 refugiados ou requerentes de refúgio em Minas Gerais, isentando dos cálculos outros grupos semelhantes como haitianos e venezuelanos que são considerados migrantes, detentores de vistos humanitários, que quadriplicariam o número.

O refúgio hoje é considerado um hot button topic, envolvendo polêmica e conteúdo especulativo propagados pela grande mídia, no entanto os refugiados raramente foram estudados por economistas. Apesar de algumas pesquisas pioneiras sobre a vida econômica dos refugiados, ainda há uma falta de dados teóricos e empíricos através dos quais se pode entender e aproveitar o próprio envolvimento dos refugiados com os mercados econômicos.

A compreensão desses sistemas econômicos pode ser a chave para repensar toda a abordagem assistencialista aos refugiados imigrantes no Brasil e em Minas Gerais, transformando desafios humanitários em oportunidades sustentáveis.

Uma pessoa forçadamente deslocada ou um refugiado é alguém que detém um status jurídico concedido pelo Estado recebedor por estar em uma situação de fundado temor pela sua vida em seu Estado natal. O Estatuto do Refugiado em 1951, pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, define refugiado como o indivíduo possuidor de fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas.

O que acontece na prática é que ao chegar ao Estado recebedor os indivíduos refugiados raramente recebem soluções e oportunidades duradouras e sustentáveis, bem como não possuem os meios para participar de forma significativa na vida política, social e principalmente econômica local.

Nesse cenário, tanto o refugiado quanto o Estado de Minas Gerais deixam de ganhar. No estado mineiro, por exemplo, percebe-se que há um grande número de refugiados educados e qualificados, entretanto, a maioria deles encontra ou encontrou dificuldades ao ingressar no mercado de trabalho, seja por falta da validação do seu diploma, seja por barreiras burocráticas.

Dos 183 refugiados em Minas Gerais, 85% estão em idade economicamente ativa e 69 indivíduos tem nível de escolaridade mínima de ensino superior completo, sendo muitas vezes altamente empreendedores e conectados à economia global. As implicações são simples, longe de ser um fardo inevitável, os refugiados têm a capacidade de se ajudar e de contribuir economicamente para as sociedades que os acolhem, se os permitirmos.

Em contrapartida a inovação social é a última tendência em empreendedorismo em todo o mundo e respondendo a demanda de consumidores mais conscientes, há uma nova geração de investidores, empresas e uma forte onda no mercado de novos modelos de negócios que se preocupam com impactos, causas e propósitos.

Oportunidade – Conectando os empreendedores refugiados e essa crescente massa de empresas que querem surfar na onda do impacto social, vinculado ao retorno financeiro, nasceu o Welcome To, uma startup que se propõe a formar uma rede de auxílio ao empreendedor refugiado em Minas Gerais conectando-os a entidades da iniciativa privada que estejam dispostas a praticar pro bono e marketing social.

É o caso de Khaled Tomeh, que é um jovem empreendedor sírio que se viu forçado a imigrar para o Brasil com sua família em consequência do conflito sírio.

Apesar de possuir duas graduações na Síria, devido à grande burocracia brasileira, Khaled não conseguiu a validação de seus diplomas, o que o impediu de atuar em sua área. Ele então empreendeu e recorreu a economia criativa. Hoje ele é proprietário da loja de produtos árabes, a Baity, situada no Mercado Central de Belo Horizonte e se propõe a propagar a verdadeira cultura e culinária árabe. A Baity é uma iniciativa acelerada pelo Welcome To e contribui para o fomento da economia local.