Estatal mineira aponta que escassez de chuvas no ano passado foi a principal influência para o reajuste nas contas de luz - Crédito: Alisson J. Silva

Os mineiros vão enfrentar um duplo reajuste nos valores cobrados pela energia elétrica. O aumento mais pesado começa a valer já a partir da próxima terça-feira (28), quando as tarifas cobradas pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) terão reajuste médio de 8,73%, percentual aprovado ontem pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). E, a partir de 1º junho, começa a vigor o incremento no valor da bandeira tarifária, também reajustada ontem pela Aneel. A atualização total vai chegar a partir da fatura com vencimento em julho. Entre os fatores que interferiram no aumento praticado pela Cemig estão alta do dólar e a escassez de chuva em 2018.

De acordo com a Aneel, o aumento da tarifa da Cemig Distribuição (Cemig-D) será de 6,93% para o consumidor residencial. Já para a indústria, o reajuste será, em média, de 10,71%. Para a baixa tensão, que inclui os consumidores residenciais e rurais, entre outros, a média de alta é de 7,89%. Atualmente, a Cemig fornece energia a 8,4 milhões de unidades consumidoras localizadas em 774 municípios mineiros.

Ainda conforme a Aneel, o reajuste da Cemig-D foi impactado principalmente pelo aumento dos custos de aquisição de energia, como da Usina Hidrelétrica de Itaipu, que é precificada em dólar. Do total do aumento, 3,26% são referentes à aquisição de energia No cálculo do reajuste, a agência considera a variação de custos associados à prestação de serviços, levando em conta aquisição e transmissão de energia, além de encargos setoriais.

No caso dos encargos, a contribuição foi no sentido de reduzir o reajuste. Isso porque o pagamento do empréstimo da Conta-ACR contribuiu para queda de 2,85% na atualização dos valores. Em 2014, frente à situação crítica dos reservatórios, o governo federal fez empréstimo junto a bancos privados. A quitação da Conta-ACR foi antecipada, eliminando essa cobrança das contas.

Já a Cemig informou que a principal influência para o aumento nos valores veio da escassez de chuvas em 2018, quando as usinas termelétricas, que têm maior custo de produção de energia, foram acionadas. Com isso, segundo informou o gerente de Tarifas da Cemig, Giordano Bruno de Braz de Pinho Matos, a Cemig teve despesa adicional de R$ 1,5 bilhão para comprar energia até fevereiro de 2019.

Do valor cobrado na tarifa, 22% ficam na Cemig Distribuição e vão para remunerar investimento, cobrir a depreciação dos ativos e outros custos da empresa. Os 78% restantes são destinados a encargos setoriais (13%); tributos (30%); energia comprada (29%) e encargos de transmissão (6%). O reajuste tarifário anual e as revisões tarifárias estão previstos em contrato.

Nos três primeiros meses deste ano, a Cemig investiu R$ 167,5 milhões no sistema elétrico. E, segundo a companhia, a previsão é que, até o final do ano, os recursos para melhoria da rede elétrica superem R$ 1 bilhão.

Bandeiras – No caso das bandeiras tarifárias, os reajustes vão variar de 20% a 50%. A bandeira amarela passará a ser de R$ 1,50 a cada 100 kWh, sendo que antes era de R$ 1 (alta de 50%). Já a bandeira vermelha 1 vai de R$ 3 para R$ 4 a cada 100 kWh (aumento de 33%). Na bandeira vermelha 2, o reajuste é de 20%, passando de R$ 5 para R$ 6.

A metodologia utilizada pela Aneel para definir o acionamento das bandeiras também passou por mudanças, o que segundo a agência possibilitará que o mecanismo tarifário retrate com maior precisão a conjuntura energética.

Especialistas avaliam que o final do período tradicional de chuvas na região das hidrelétricas, que vai até abril, deve fazer com que a bandeira fique no patamar vermelho ou vermelho nível 2 nos próximos meses, um cenário que poderia se prolongar até novembro.

Atualmente, está vigorando a bandeira amarela. A Aneel definirá, no final do mês, se haverá alteração da bandeira. Em junho do ano passado, a bandeira adota foi a vermelha 2. O período é de estação seca nas principais bacias hidrográficas do Sistema Interligado Nacional (SIN), o que aumenta as chances de adoção da bandeira vermelha. (Com informações da Reuters).

Fiemg: aumento pode dificultar retomada

O reajuste médio de 10,71% na tarifa de energia para os consumidores de alta tensão, ou seja, para as indústrias, que será praticado pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), pode dificultar ainda mais a recuperação da economia mineira e brasileira.

“É mais um componente amargo nesse quadro de dificuldade de recuperação da economia mineira e brasileira”, disse ontem a gerente de economia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Daniela Brito.

Segundo ela, o reajuste ocorre num momento em que a indústria tem pouca margem para absorver a alta do custo da produção, devido à baixa demanda. Com isso, haverá redução da capacidade de investimento, de geração de emprego e de ampliação dos negócios.

A economista também reforça o impacto da desvalorização cambial na inflação, com aumento do custo da energia. Além disso, há aumento do custo de produtos importados que fazem parte de insumos básicos para a indústria.

“Isso se junta a outros ajustes que a indústria vai fazer devido ao aumento do preço do aço em função da alta do preço do minério”, diz.

“Pegando o exemplo de uma indústria como a metalúrgica, que é eletrointensiva, o custo da energia representa 30% do custo direto de produção. Essa combinação de alta da energia, do minério e do aço tem dois efeitos. Um é repassar o preço para o consumidor, o que é difícil nesse momento em que o principal problema é demanda fraca. O outro é reduzir margens, reduzindo capacidade de investir. Ou seja, é ruim de todas as formas”, diz.

Daniela Brito informa que a Fiemg vem trabalhando na tentativa de reduzir os custos de produção e aumentar a competitividade da indústria no Brasil. Entre as principais demandas está a redução da carga tributária.