O Trembier Festival de Cerveja Especial deve reunir 30 mil pessoas entre os dias 3 e 5 de maio - Créditos: Leo Lara.

Dona de um passado forjado a ouro e glória nos séculos 18 e 19, Tiradentes, no Campo das Vertentes, se tornou, neste século, a cidade dos eventos em Minas Gerais. Os cerca de 8 mil moradores, de acordo com estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para 2018, estão acostumados a receber visitantes do País e do mundo em comemorações que vão da tradicional Semana Santa, passando pela Mostra de Cinema de Tiradentes, festivais internacionais de gastronomia e fotografia, entre outros.

O próximo evento, que deve reunir 30 mil participantes entre os dias 3 e 5 de maio, é o Trembier Festival de Cerveja Especial. Em sua sexta edição, a festa promete reunir a cadeia produtiva e apreciadores da cerveja artesanal para um encontro que valoriza a produção mineira. Até agora, 80% dos leitos da tricentenária cidade já estão ocupados.

De acordo com o idealizador e coordenador do Trembier, Luiz César Costa, a cidade hoje já representa uma grife que imprime qualidade aos eventos que sedia.

“É um via de mão dupla. Bons eventos trouxeram nome à cidade e exigiram que seus serviços se qualificassem. De outro lado, além do seu charme natural, a cidade já empresta credibilidade aos eventos. As pessoas querem curtir os eventos e também Tiradentes. Sabem que se o evento é aqui, as possibilidades de ele ser muito bom são grandes”, explica Costa.

Formação profissional – No Trembier existe também preocupação com a formação profissional. Nesta edição, será realizado o Primeiro Seminário Mineiro da Cerveja Artesanal, em parceria com o Serviço Nacional de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

São aguardadas mais de 30 cervejarias de todas as regiões de Minas, que estarão presentes no Largo das Forras. Além das marcas já tradicionais dos polos produtivos de Belo Horizonte e Juiz de Fora (Zona da Mata), estarão presentes rótulos de outras regiões, como a Hop Makers, de Divinópolis, a Copina, de Carmo da Mata (região Centro-Oeste), além da Funil e da Joia Mesquita, ambas de Lavras (Sul de Minas), tendo esta última sido eleita a melhor Pilsen do Brasil na sétima edição do Concurso Brasileiro de Cervejas (CBC), que aconteceu em Blumenau (SC), em março.

“Assim como a cachaça, a cerveja artesanal já pode ser considerada um trunfo de Minas Gerais. Valorizamos a produção mineira e convidamos marcas de outros estados para que possamos trocar ideias, fazer intercâmbio. Nosso intento é ajudar o cervejeiro a expor sua marca e conquistar compradores. Todo o evento tem uma preocupação econômica dentro do próprio festival e também com um legado que deixa para a cadeia produtiva e para a própria cidade”, destaca o idealizador do Trembier Festival.

Para a presidente da Associação de Empresários de Tiradentes (Asset), Rejane Cunha, a cidade se tornou um destino de diferentes perfis a partir da compreensão de que planejamento é fundamental. Não basta ter um casario preservado e estar em meio a uma natureza exuberante, emoldurada pela Serra de São José. É preciso um trabalho contínuo que envolva poder público, empresários e população em torno de um objetivo: receber bem e tornar a atividade um motor de desenvolvimento social e econômico para toda a cidade.

Estratégias – “Os eventos são parte estrutural de toda a economia que gira na cidade. A organização é contínua. O nosso calendário marca todos os eventos. Fazemos o controle de ocupação, orientamos os empresários para que se organizem para bem receber. Tem um trabalho muito importante para oferecer qualidade na estada para as pessoas. São muitos detalhes que quando dão certo passam despercebidos, mas quando dão errado, é muito complicado corrigir. Uma cidade que triplica de população em um fim de semana tem que garantir para todos o abastecimento de água, que exista médico no posto de saúde, gasolina no posto de combustível, por exemplo. Nada disso pode falhar. Temos que oferecer uma experiência boa para o turista”, pontua Rejane Cunha.

Para garantir essa organização, foi montada uma comissão permanente que reúne membros da prefeitura, empresários, órgãos de proteção ao patrimônio, fornecedores de serviços como água e luz, entre outros. São mais de 20 pessoas que se reúnem com os organizadores para dimensionar as necessidades do evento e definir o que é de responsabilidade de cada um.

Depois de cada evento, também é realizado um encontro de balanço, que avalia os resultados e o que precisa ser melhorado em termos de estrutura e organização.

“Funcionamos como uma instância de governança. Isso é interessante, pois a sociedade civil se organizou e assim garantimos uma continuidade dos projetos mesmo quando existem mudanças políticas no comando da cidade. Hoje, Tiradentes já pode, de alguma forma, selecionar os eventos que sedia”, analisa a presidente a Asset.

A antiga São José Del Rei não costuma enfrentar grandes índices de desemprego. Durante os maiores eventos é comum, inclusive, ser preciso buscar mão de obra nas cidades vizinhas como Santa Cruz de Minas, São João del-Rei e Barroso.

É o que acontece, por exemplo, durante o Tiradentes Em Cena – Mostra de Artes Cênicas de Tiradentes, que chega esse ano à sua sétima edição. A curadora da Mostra, Aline Garcia prevê a participação de entre 15 mil e 20 mil visitantes entre os dias 18 e 25 de maio. O número de empregos diretos proporcionados entre artistas, jornalistas, produtores, motoristas, técnicos, carregadores, limpeza e outras áreas é estimado em cerca de 400 pessoas e o número de empregos indiretos 1.200.

Em 2019, diante de uma grave crise no setor cultural a organização do evento ainda tem dificuldades para fechar as cotas de patrocínio, o que impede a estimativa final sobre o giro econômico no município.

“Foram mais de 400 inscrições em apenas 15 dias e grupos de todas as partes do País. Analisar cada ficha de inscrição é um grande prazer, pois nos dá a possibilidade de conhecer artistas de todas as regiões em plena atividade. No entanto, também traz uma grande frustração em ver que não conseguimos concretizar nem 10% do que gostaríamos e do que o público merece assistir. Tiradentes é a cidade em que nasci e sempre achei que em meio a tantos eventos faltava um para dedicado ao teatro. Ter um produtor morador dá força ao Festival. Essa é uma cidade que respira arte já conseguimos várias vitórias como manter o grupo de teatro durante todo o ano. Essa é a cara da nossa cidade”, destaca Aline Garcia.