Créditos: Adriano Machado / Reuters

CARLOS PERKTOLD*

A dificuldade de censurar a imprensa na democracia é que, nela e de forma costumeira, a matéria censurada é reproduzida em outros veículos ad nauseam, despertando o interesse e a curiosidade do grande público. O caso da censura da revista Crusoé e do site “O Antagonista” não foi diferente.

O ministro José Antônio Dias Toffoli foi denunciado por Marcelo Odebrecht como sendo o “o amigo do amigo do meu pai” nas planilhas da construtora e o documento com essa declaração e denúncia estava anexado ao processo, segundo a revista. “Quem não deve, não treme” diz o dito popular. O ministro deveria ter se recolhido à sua importância maior de presidente do STF e esperar o processo andar até chegar a sua vez de se defender.

Se fosse mentira da revista, exigiria direito de resposta e indenização por danos morais. Mas ele e o ministro Alexandre de Moraes se apressaram e, aparentemente, não imaginaram a repercussão e as consequências da censura. Este, atendendo a um pedido daquele, ordenou a retirada da matéria e a multa de cem mil reais ao dia se não fosse cumprida a ordem.

Se a intenção de Alexandre de Moraes foi a de defender o seu colega presidente do STF, ausente do País naquele dia, e que a reportagem de capa da revista não fosse mais lida e seu conteúdo ficasse desconhecido pelo grande público, o tiro saiu pela culatra.

O indesejado e censurado texto está circulando pelas redes sociais. Recebi-o de pelo menos de três amigos diferentes, todos trazendo a matéria completa e ainda um adendo informando que ela estava censurada pelo ministro Alexandre de Moraes. Claro que, diante da censura, o interesse pelo seu conteúdo foi maior. O vídeo está viralizado e vulgarizado nas redes sociais e quem não sabia do que se tratava, passou a saber. Quem não se interessava pelo assunto, passou a se interessar. Quem não tinha a menor curiosidade sobre o material, passou a tê-la de tal sorte que um assunto que, antes da censura, ficaria restrito aos assinantes de uma revista com um ano de existência e pouco conhecida do grande público, passou a ser conhecido por pessoas que nunca a assinaram e nem teriam acesso a ela e ao texto se não fosse a decisão de Alexandre de Moraes, ministro do STF.

Há muitos anos um assunto censurado estava mesmo censurado e somente ficávamos sabendo desse procedimento décadas depois. Com a democracia tão incômoda a certos setores e instituições, isso não ocorre mais. Pelo contrário. A notícia censurada se espalha de forma avassaladora. O censurado acaba premiado e colocado no lugar de grande prejudicado e o censor no lugar do antidemocrata que deveria zelar pela Constituição.

*Psicanalista, advogado e escritor