Possível desabamento do talude norte da mina Gongo Soco pode resultar em rompimento de barragem - Crédito: REUTERS/Washington Alves

A movimentação no talude Norte, na cava da mina Gongo Soco, em Barão de Cocais, na região Central do Estado, e o risco de ruptura da barragem do complexo levaram a Vale a interromper o transporte de cargas na Estrada de Ferro Vitória a Minas no trecho entre Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), e Barão de Cocais.

Por meio de nota, a mineradora informou que a medida segue em alinhamento com a Agência Nacional de Mineração (ANM), já que o trem passa perto de Gongo Soco, e busca preservar a segurança das pessoas, permanecendo em vigor até que a Vale realize análises de risco mais aprofundadas. “A cava e a barragem são monitoradas 24 horas por dia”, disse em comunicado.

A reportagem questionou sobre os volumes transportados, bem como outros impactos que poderiam ser causados pela paralisação em parte do escoamento. A empresa disse apenas que “está avaliando alternativas para minimizar os impactos decorrentes dessa paralisação”.

A ação teve início no último domingo (19), procedimento adotado no dia 16 para o trem de passageiros, pelo mesmo motivo, também por tempo indeterminado.

“Os passageiros que embarcam na estação Belo Horizonte já estão sendo conduzidos até a Estação Dois Irmãos, em Barão de Cocais, por meio de ônibus locados pela empresa. Da Estação de Dois Irmãos, os passageiros seguem viagem por trem. No sentido contrário (Vitória-Belo Horizonte) os passageiros estão desembarcando do trem na Estação Dois Irmãos e seguindo por meio rodoviário até o destino final”, consta na nota enviada pela empresa.

Mina – Desde a última semana, a Vale lida com os riscos e impactos do rompimento do talude norte, na cava da mina Gongo Soco. Na ocasião, a mineradora havia informado que suas equipes identificaram movimentação na parte superior da cava da mina, paralisada desde 2016. Informou ainda que as autoridades competentes haviam sido envolvidas para também avaliarem a situação.

Uma nota do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) indicou que a mineradora teria informado que haveria o risco de ruptura na cava, entre 19 e 25 de maio, e que o movimento poderia provocar ainda a ruptura da Barragem Sul Superior e a onda de rejeitos atingir a cidade de Barão de Cocais.

A barragem, que está há 1,5 km da área do talude, está em nível 3, o mais crítico para risco de rompimento, desde 22 de março, e a Zona de Autossalvamento já havia sido evacuada preventivamente em 8 de fevereiro. A estrutura tem volume de 6 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, segundo a reguladora ANM.

Vale destacar que após o desastre ocorrido em janeiro, em Brumadinho (RMBH), a companhia anunciou um prejuízo líquido de US$ 1,64 bilhão no primeiro trimestre, contra lucro de US$ 1,59 bilhão no mesmo período de 2018.

Estragos podem ser maiores do que o previsto

Brasília – O estrago que o rompimento da barragem da Mina de Gongo Soco causará na região de Barão de Cocais poderá ser ainda maior do que o previsto no relatório dam break, apresentado pela Vale, empresa responsável pela mina.

O alerta é do Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), núcleo composto por pesquisadores e alunos com formações diversas, que se utiliza de conhecimentos econômicos, geográficos, sociológicos e de políticas públicas para analisar e avaliar os impactos que as redes de produção associadas à indústria extrativa mineral geram para a sociedade e para o meio ambiente.

Segundo o engenheiro e integrante do grupo Bruno Milanez, as projeções apresentadas no relatório da Vale subestimaram a capacidade destrutiva da onda, por não levar em consideração o aumento de sua densidade por conta dos objetos de médio e grande porte que seriam arrastados ao longo do percurso.

“O modelo que usaram foi baseado em onda de água, considerando a altura do rejeito e a velocidade. No entanto, o rejeito terá uma densidade maior, porque ao longo do trajeto a onda carregará também os objetos que estiverem pelo caminho”, disse à Agência Brasil o professor do Departamento de Engenharia da Produção da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Bruno Milanez.

O engenheiro alerta que “se essa onda trouxer consigo objetos como troncos ou até mesmo caminhões, ela terá uma densidade ainda maior de rejeitos. Dessa forma, o potencial de destruição nas áreas amarela e verde [áreas que segundo o estudo não seriam atingidas ou seriam parcialmente destruídas] seria ainda maior”.

A Agência Brasil entrou em contato com a Vale, para saber a posição da empresa sobre a crítica apresentada pelo integrante do PoEmas. A companhia, no entanto, manifestou apenas seu posicionamento com relação ao prazo de 72 horas, dado pela juíza Fernanda Machado, da Vara de Barão de Cocais (MG), para que apresentasse o estudo dos impactos relacionados ao eventual rompimento das estruturas da Mina de Congo Soco.

“A Vale, no prazo fixado pela determinação judicial, apresentou o relatório mais atualizado de dam break da Barragem Sul Superior, explicando naquela oportunidade a adequação dos critérios técnicos”, diz a nota enviada pela Vale à Agência Brasil.

Segundo a coordenadora nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Maria Júlia Andrade, a forma como as informações estão sendo repassadas pela Vale é inadequada, o que tem gerado “pânico e terror” na população local. Maria Júlia diz que há uma preocupação muito grande, nos últimos dias, após ter vindo à tona a informação de que existe um talude da cava da mina prestes a desmoronar.

“Esse problema já existia, mas ele só veio à tona agora. E o maior problema é que esta cava está localizada muito perto, cerca de 300 metros, da barragem que já estava em risco máximo há mais de três meses”, disse a coordenadora.

Na avaliação do MAM, “as informações [sobre os riscos] são dadas a conta-gotas, e o pânico e o terror estão generalizados [na região]. As pessoas não sabem se o risco é real, não sabem se a barragem vai romper ou não. Só sabem que existe um pânico e um medo de uma bomba relógio em cima de suas cabeças”, disse. (ABr)