Pequenas editoras não conseguem colocar seus títulos nas prateleiras das grandes redes de livrarias como Saraiva (foto) e Cultura

Começada mais uma temporada escolar – ou quase, já que muitas prefeituras adiaram o início do ano letivo por conta da crise econômica -, é esperado o frenesi de pais em busca de material e livros escolares. A realidade das livrarias, porém, já não é mais a mesma. A antiga prática da troca de livros usados está cada dia mais rara.

A distribuição de livros didáticos pelos sistemas públicos de ensino tirou das livrarias uma boa parte dos alunos, que recebem o material da própria escola. No sistema particular, editoras têm se empenhado em fazer negociações diretamente com as escolas, principalmente no caso das redes. Assim, as livrarias que antes esperavam ansiosamente pela volta às aulas, hoje se esmeram na venda apenas de materiais e muitas se converteram em papelarias.

De acordo com José Henrique Guimarães, CEO do Gupo Acaiaca, que compreende a Distribuidora Acaiaca, Acaiaca Digital – distribuidora de e-books -, site de e-commerce e a loja física Outlet de Livro, a compra centralizada pelo governo federal de livros para as escolas públicas no Brasil, ainda nos anos de 1990, alterou substancialmente o mercado editoral e de livrarias.

“Essa compra volumosa e centralizada acabou encurralando as editoras e esvaziando as livrarias como canal de distribuição. O governo compra muito barato das editoras, mal pagando os custos com papel, impressão e direitos autorais. Dessa forma quem acaba subsidiando o segmento de didáticos é o pai que tem filhos na escola privada. De outro lado, os próprios grupos educacionais editam o seu material didático, enfraquecendo, mais uma vez, editoras e livrarias. Uma saída para as editoras é fazer parcerias diretas com as escolas e criar os seus próprios sistemas de ensino, mas poucas conseguiram fazer isso”, explica Guimarães.

Apenas na edição do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) 2018, o governo comprou 153,9 milhões de livros e investiu R$ 1,47 bilhão. Os livros foram destinados ao atendimento de alunos do ensino médio; reposição dos livros consumíveis para os alunos de todas as séries do ensino fundamental, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e campo; livros adicionais consumíveis e reutilizáveis para cobrir acréscimos de matrículas para os alunos de todas as séries do ensino fundamental e campo. Foram beneficiados 31 milhões de estudantes. Apenas por essa conta, a título de exemplo, cada exemplar saiu, em média, por R$ 9,55.

Mercado – Para a presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia – 6ª Região (MG/ES), Marília Paiva, a falta de uma política pública robusta que favoreça a geração de um público leitor impacta todo o mercado e, pior, desqualifica a educação oferecida aos brasileiros. A Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) publicou o estudo “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, analisando o período de 2006 a 2017, enfatizando essa triste realidade do setor editorial com o faturamento do setor caindo 21%, representando uma perda de quase R$ 1,4 bilhão.

“Temos um problema grave que é a ausência de uma política pública que valorize o livro e a leitura. Os nossos programas de letramento têm baixos resultados. Em 2006, foi instituída a Política Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), que nunca foi realmente efetivada. Em 2018, ela foi substituído pela Lei Castilho (Lei 13.696/18), que instituiu a Política Nacional de Leitura e Escrita, muito mais rasa”, pontua Marília Paiva.

Segundo a autora e editora de Literatura da Dimensão, Silvana Costa, o adiamento do início do ano letivo nos municípios não impacta diretamente as editoras, já que a compra dos livros didáticos pelo governo é feita de quatro em quatro anos, com entregas anuais apenas para reposição. As diretrizes para a educação do novo governo, ainda não conhecidas, porém, deixam o setor apreensivo e com muitas dúvidas.

Fundada em 1985, a Dimensão, com sede no bairro Castelo (região da Pampulha), dedicou-se inicialmente à publicação de didáticos. O sucesso das primeiras produções levou à construção de um expressivo catálogo de obras de literatura infantil e juvenil, hoje com cerca de 300 títulos.

“Ainda não sabemos ao certo como será o edital de 2019. Hoje, os editais públicos correspondem por cerca de 60% dos resultados da editora, entre os didáticos comprados pelo governo federal e os de literatura comprados pelas prefeituras. Praticamente não trabalhamos com as livrarias para o segmento didático. Investimento na venda direta pelo site, divulgação nas escolas e em eventos como feiras. Mesmo nas escolas o que é mais vendido são os materiais para a educação infantil – até seis anos. Infelizmente, as pequenas livrarias e independentes vêm perdendo espaço como canal de venda”, lamenta Silvana Costa.

O impacto sentido pelo segmento dos didáticos abala também os demais. Se as pequenas editoras já não conseguiam colocar seus títulos nas prateleiras das grandes redes de livrarias como Saraiva e Cultura – hoje em processo de recuperação judicial -, as pequenas livrarias também servem pouco como canal de venda.

A editora-chefe da Páginas Editora e recém-empossada vice-presidente da Câmara Mineira do Livro, Leida Reis, também aposta nos eventos e na internet para manter as vendas e defende uma menor dependência do poder público. A Páginas é sediada no bairro Padre Eustáquio, na região Noroeste, e se dedica especialmente aos segmentos infantil e jovem-adulto.

“A quebra das grandes redes de livraria significa um grande problema para as grandes editoras, que estão perdendo um canal de venda e deixando de receber os créditos devidos. Para as pequenas isso não fez diferença. As editoras menores estão buscando a venda direta em feiras, bienais, se apresentando nas escolas e nas livrarias independentes, além do on-line.

Nós temos venda no nosso site e também em marketplaces como o Amazon. A verdade é que o mercado precisa se reinventar. O preço praticado pelo governo está congelado há anos. Várias prefeituras também não têm feito compras regulares. Não podemos depender de um só comprador”, afirma Leida Reis.