Cesar Vanucci*

“A riqueza para alguns se parece com a água do mar;
quanto mais dela bebem tanto mais sede experimentam.”
(Schopenhauer)

Os sinais de que as coisas andam mal são de ululante obviedade. Não incorrem em exagero as pessoas que resolvam admitir que as coisas, no duro da batatolina, vão é de mal pra pior. E – de modo arrepiante – em ritmo célere.

A avalancha de situações contundentes que deprimem a humanidade, deixando-a por vezes até em estado de choque, neste mundo lindo criado pelo bom Deus, onde existem abundantes territórios minados pelas artimanhas e maldades do tinhoso, parece dar sentido a um vaticínio, muito comentado na atualidade, do saudoso Chico Xavier. Reportamo-nos a uma fala dele, registrada em vídeo, de alguns anos atrás. Foi dito ali que estaríamos, já agora, nos acercando velozmente de uma data-limite para cruciais definições.

Não sabemos dizer, evidentemente, se todos os leitores já se inteiraram das chocantes revelações contidas na mais recente pesquisa da “Oxfam International”. É importante que procurem se informar a respeito. Os dados divulgados agora, no Fórum de Davos, não permitem possam subsistir mais dúvidas sobre a necessidade da adoção, por parte de quem no concerto mundial detenha poderes decisórios, de medidas urgentes, na linha do avanço civilizatório, com o indesviável fito de reduzir as clamorosas desigualdades sociais desta quadra da história humana. Uma quadra marcada por paradoxos e contrassensos azucrinantes. Como explicar, por exemplo, a ocorrência aviltante dos problemas assustadores identificados em vastas áreas geográficas e sociais do planeta, diante dos extraordinários avanços tecnológicos contemporâneos, gerados pelo labor e criatividade dos seres humanos? Como justificar, à luz do bom-senso, dos valores humanísticos e espirituais, que todo esse significativo acervo de conquistas não se volte prioritariamente para assegurar o bem-estar social em escala realmente global.

Voltemos à pesquisa da “Oxfam”. Segundo ela – pasmo dos pasmos! – as 26 pessoas mais ricas do mundo detêm a mesma riqueza dos 3 bilhões e 800 milhões dos viventes mais pobres, que correspondem a 50 por cento da humanidade.

Imaginando que o estimado leitor, já refeito do susto provocado pela estarrecedora informação, esteja devidamente preparado para conhecer outras estapafúrdias revelações a respeito das desigualdades sociais imperantes, juntamos na sequência outras conclusões do trabalho técnico propagado. Os números indicam que a riqueza em 2018 ficou mais concentrada ainda do que em 2017. A fortuna do grupo dos biliardários aumentou 12 por cento. Equivale a 900 bilhões de dólares, em reais, 3 trilhões e 300 bilhões, ou 2 bilhões e 500 milhões de dólares (cerca de 9 bilhões e 400 milhões de reais)… por dia. Lado outro, a metade mais pobre do planeta viu seu patrimônio diminuído, no mesmo período, em 11 por cento. Do relatório extraem-se mais, entre outras, as seguintes notícias: a) desde a crise econômica de 2007 o contingente dos muito ricos dobrou.

Pulou de 1.125 em 2008, para 2.208 em 2018; b) os homens detêm 50 por cento mais do total da riqueza do que as mulheres; c) a riqueza do homem mais rico do mundo, Bezos, dono da “Amazon”, atingiu ano passado o topo everestiano dos 112 bilhões de dólares. Cabe ressaltar que o orçamento de saúde da Etiópia açoitada pela fome e pandemias corresponde, de acordo com o estudo, a 1 por cento da fortuna mencionada.

O documento da ONG alinha, juntamente com os números das disparidades na distribuição da riqueza, propostas sobre como enfrentar, do ponto de vista da justiça social, a colossal tarefa de eliminar as tensões derivadas da escalafobética situação retratada.
O tema pede, naturalmente, outras reflexões mais.