A inovação proporcionada pela tecnologia 5G vai beneficiar o agronegócio e a mineração no Brasil | Crédito: Divulgação

A apresentação da tecnologia 5G realizada em Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas, pelo Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), TIM e Ericsson, na quinta-feira (5), antecipou um futuro próximo capaz de modificar radicalmente dois dos mais importantes
pilares da economia mineira e brasileira: o agronegócio e a mineração.

Diante do desafio de propor um 5G para atender as necessidades de um país continental e com grandes desigualdades, a tecnologia apresentada tem como característica específica a
capacidade do cobrir grandes distâncias (long range) – áreas remotas com grande extensão e baixa densidade demográfica.

Isso sem abandonar as demais características do 5G já esperadas pelo consumidor: alta velocidade, alta potência – volume de dados, aumentando exponencialmente o número de dispositivos conectados simultaneamente sem queda na qualidade da transmissão – e baixa latência – menor tempo de resposta.

A novidade, que já pode começar a ser implantada no final de 2020 – a depender do leilão de frequência prometido pelo governo federal para o primeiro semestre do ano que vem -, deve romper a última fronteira da internet rápida não só no Brasil, mas no mundo: o agronegócio.

De acordo com o CTIO da TIM Brasil, Leonardo Capdeville, hoje o agronegócio é mal atendido pelas soluções de internet existentes, o que dificulta a utilização de dispositivos inteligentes – a chamada internet das coisas (IoT) – no campo. Enquanto o agronegócio se moderniza e automatiza, continua difícil promover a comunicação entre as máquinas e, especialmente, o monitoramento a distância.

“O 4G é uma solução que veio para conectar pessoas. A revolução do 5G é conectar coisas e pessoas. A capacidade do 5G que nasce desse grupo de pesquisas sediado aqui em Santa Rita do Sapucaí de cobrir grandes distâncias com baixa densidade demográfica vem para revolucionar o agronegócio, ampliando a produtividade e competitividade desse setor que já é responsável por quase um terço do PIB Nacional”, explicou Capdeville.

A quinta geração da internet daria a possibilidade de um dispositivo inteligente, por exemplo, conectado a um laboratório em qualquer lugar do mundo fazer a análise do solo ou a leitura do microclima e a partir disso determinar e autorizar a correção com a aplicação de técnicas e/ou produtos em quantidades exatas com o menor gap de tempo possível, alcançando a máxima assertividade.

Isso só será possível porque o 5G tem entre suas características o long range e a baixa latência. Tudo isso também alteraria as configurações de trabalho no campo. A expectativa é de que a tendência de demanda por profissionais com capacitação tecnológica cresça em proporção nunca vista, substituindo atividades existentes hoje com menor investimento em capital intelectual.

O que geraria, em uma visão otimista, empregos de melhor qualidade no campo, pode, no curto prazo, enfrentar sérias dificuldades causadas pela já evidente, há mais de uma década, falta de mão de obra qualificada no Brasil. O ambiente é ainda mais agravado pelos constantes cortes em educação e pesquisa sofridos pelo Brasil nos últimos anos.

Na pesquisa realizada dentro do Inatel, nos últimos quatro anos estiveram envolvidos
36 pesquisadores entre professores e alunos. O alerta é do diretor do Inatel, Carlos
Nazareth.

“Hoje, para a implantação do 5G, sentimos a necessidade da formação de mais profissionais. E não só para isso. Hoje, por exemplo, o déficit de profissionais para a criação de softwares é gigantesco. Até aqui no Inatel temos vagas que demoramos um ou dois anos para conseguir preencher para o desenvolvimento de determinadas tecnologias. Talvez o grande gargalo enfrentado pelo Brasil nos próximos anos seja a falta de profissionais para atuar no mercado de tecnologia”, pontuou Nazareth.

Do lado da solução desse problema está a capacidade de o 5G promover a chegada também de conhecimento aos lugares mais remotos. Com a tecnologia seria realmente possível aulas on-line em tempo real e com uso ilimitado de aplicações como realidade aumentada, realidade virtual, por exemplo, e outras possibilidades existentes e outras que sequer foram inventadas.

“Imagine o que seria um professor aqui do Inatel poder dar aula para alguém em qualquer lugar do Brasil ou do mundo ensinando sobre tudo isso que estamos falando ou dando uma aula extremamente pensada para solucionar um problema que acontece naquele lugar. O 5G pode ser a ferramentade uma verdadeira revolução educacional permitindo que as pessoas estudem em seus lugares de origem, sem deslocamentos, com um custo muito menor e acesso aos mesmos recursos que qualquer pessoa tem nos grandes centros”, destacou o CTIO da TIM Brasil.

Casa TIM propõe experimentação em tempo real

Para demonstrar as aplicações do 5G, a [email protected] Viva – iniciativa de inclusão social e educação tecnológica do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) -, no campus acadêmico, foi transformada em Casa TIM 5G.

O projeto é o primeiro do Brasil a permitir ao público a ver de perto a tecnologia sendo utilizada em um ambiente real, com situações cotidianas, em diferentes áreas. O objetivo da TIM em parceria com o Inatel e a Ericsson é o desenvolvimento do ecossistema de soluções e experimentação da nova tecnologia em tempo real, operando na frequência de 3,5GHz. Essa foi a segunda ativação feita pela TIM no Brasil, mediante licença específica da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

A primeira foi em Florianópolis (SC), em junho, onde a operadora registrou velocidades superiores a 1Gbps. A próxima cidade a receber a demonstração deve ser Campina Grande (PB), até o fim do ano.

Na Casa, os visitantes puderam ter experiências nos campos da saúde, educação, segurança, entretenimento, o funcionamento de uma casa conectada, além de demonstrações de aplicabilidade na indústria e indústria 4.0.

Na área da saúde, uma das experiências foi o atendimento médico baseado em imagem com luva tátil controlada remotamente. A paciente estava na Casa TIM 5G e a médica fez o diagnóstico a partir do seu consultório. Na educação, em parceria com a Cisco, aconteceu uma aula a distância dada por um professor com soluções de comunicação unificada, utilizando um quadro interativo (webex board). O professor estava em um laboratório Cisco e os alunos na Casa TIM.

Já na indústria uma das demonstrações foi feita em parceria com a ABB através do robô YuMi, considerado o primeiro robô colaborativo de dois braços do mundo. Ele foi capaz de fazer um café e servir aos visitantes. O objetivo era demonstrar como a conectividade e a confiabilidade da rede 5G permitem acessar uma aplicação remotamente com maior velocidade, além de exemplificar a precisão do robô.

A Casa TIM funcionou durante a quinta edição do festival de inovação Hack Town em Santa Rita do Sapucaí. O evento ofereceu mais de 600 palestras, shows e workshops simultâneos reunindo mais de 5,5 mil participantes inscritos entre os dias 5 e 8 de setembro.

Santa Rita do Sapucaí além de sediar o Inatel – que seria naturalmente um palco propício a esse tipo de evento – é considerada o Vale da Eletrônica brasileiro com cerca de 160 empresas de tecnologia entre startups e indústrias, com faturamento de mais de R$ 3 bilhões em 2018, segundo dados do Sindicato das Indústrias do Vale da Eletrônica (Sindivel).

O impacto do evento sobre a cidade de cerca de 43 mil habitantes, segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2019, acaba extrapolando os limites do município. Toda a rede hoteleira de Santa Rita do Sapucaí e da vizinha Pouso Alegre (também no Sul de Minas) ficou ocupada durante o evento.

IoT trará novas oportunidades para a mineração

A revolução prometida pelo 5G para a agricultura pode ser extrapolada para outras áreas produtivas igualmente de grande impacto econômico, social e ambiental. No Brasil e, especialmente, em Minas Gerais as atenções e expectativas recaem principalmente sobre a mineração.

A atividade que, via de regra, envolve grandes riscos, poderia contar com a tecnologia, segundo o CTIO da TIM Brasil, Leonardo Capdeville, em diferentes atividades no próprio sítio de exploração com o uso de dispositivos integrados com internet das coisas (IoT).

“Para prospectar a existência de determinados minerais é preciso entrar em ambientes tóxicos, cavernas com gases, por exemplo. Hoje isso tem que ser feito com muito cuidado e é uma operação que pode demorar muitos dias, com a abertura do espaço, o tempo para a dispersão dos gases até que uma pessoa possa investigar aquele ambiente. Com a internet das coisas um robô pode entrar, fazer a análise e enviar o resultado em questão de horas ou até minutos. Isso daria velocidade e assertividade à decisão de continuar a exploração diminuindo enormemente os custos e qualquer risco para a vida dos trabalhadores”, exemplificou Capdeville.

Outro ponto extremamente importante seria o monitoramento das atividades nas minas. O controle da segurança das barragens de rejeito é um tema que interessa aos mineiros sobremaneira após os desastres causados pela mineradora Vale em Mariana (região Central), em 2015, e Brumadinho (Região Metropolitana de Belo Horizonte – RMBH), em janeiro de 2019.

“A mineração será, certamente, um grande usuário do 5G. Ela tem características e necessidades muita vezes parecidas com a agricultura. Falamos aqui de questões da produção. Mas quando vamos para a logística, o escoamento da produção do agro e da mineração, a proporção disso é quase incalculável. O monitoramento das diversas fases dessa cadeia produtiva dá segurança às pessoas e ao investimento. O mesmo vale para áreas sujeitas a desastres naturais e que tem baixa densidade geográfica como a Patagônia Chilena, por exemplo”, explicou.

Royalties – A meta é que com a permissão dada a partir do leilão da nova frequência pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) já existam aplicações disponíveis para o público no mercado. No decorrer do lançamento das tecnologias anteriores – 2G, 3G e 4G – o lapso de tempo até o lançamento das aplicações foi diminuindo. A tendência é que dessa vez ele seja zerado.

“Já temos muitas empresas trabalhando em aplicações e teremos mais. Esse é um mercado de possibilidades que se abre. Precisamos ter mais incentivos para quem produz ideias, inteligência, softwares no Brasil como acontece com o hardware hoje. O Brasil precisa virar essa chave. E mais: se essa iniciativa que sai daqui do Inatel for apoiada vamos sair lá na frente.

Quando o mundo perceber que já conectaram as cidades e precisam conectar o campo e áreas remotas o Brasil vai ter uma solução para oferecer e podemos nos tornar exportadores dessa tecnologia. Países como Índia, Rússia, Finlândia, Chile e até os Estados Unidos já sinalizaram interesse. Por isso digo que ter um ambiente que promova o desenvolvimento e a aplicação dessa tecnologia é uma questão de estado. É fazer escolhas que propiciem o desenvolvimento do País”, analisou o CTIO da TIM Brasil.