Crédito: Adriano Machado/Reuters

Cesar Vanucci *

“Democracia implica redistribuição da renda, criação de empregos e bem-estar social crescente.” (Ulysses Guimarães, sempre atual)

A ministra da Agricultura, com a firme convicção dos que se creem donos de “verdades” que não cabem ser questionadas, disse num simpósio internacional não existirem no Brasil condições propícias para o cultivo de produtos orgânicos. Conhecidos nossos, com atuação no setor da agricultura familiar, levantam, a propósito da douta opinião, a hipótese de que as estepes siberianas e o Alasca talvez sejam locais mais apropriados para essa modalidade de prática agrícola…

Com arrogante e frenética disposição, bem ao seu estilo, roçando as raias da paranoia, Donald Trump dá andamento à colossal construção de um muro na extensa divisa com o México, país considerado aliado incondicional dos Estados Unidos (imagine só se não fosse!). Explica, exultante, que a cerca comportará sofisticado sistema eletrônico, dispositivos para disparos de choques elétricos, arame farpado, vigilância permanente com cães ferozes e militares instruídos a atirarem nas pernas de indesejáveis imigrantes. Um repeteco chocante do “muro da vergonha”, implantado por ditadura comunista que dividiu a Alemanha por quase três décadas, até 1989. Muro que entrou nos anais da história como referência abominada pela consciência democrática mundial.

A inusitada e descabida exigência de apresentação de CPF em compras de produtos e serviços clama por urgente intervenção das autoridades competentes. Coletadas ao acaso, aqui vão amostras de situações desconcertantes vividas pelos fregueses. CPF para compra de barras de cereais em farmácia. CPF para poder ingressar num parque público em busca de momentos de lazer. CPF para aquisição de talão de estacionamento rotativo, mesmo que por período de apenas uma hora ao preço de quatro reais e quarenta centavos. Essa “invenção de moda” – como era de costume dizer-se em tempos de antigamente – alveja o bom-senso e produz desdobramentos indesejáveis, como é lícito imaginar.

Os de boa memória, retornando a fatos sucedidos na vida administrativa mineira anos atrás, hão de se lembrar dos categóricos argumentos levantados em favor da tese de que o Estado deveria abrir mão do controle de sua pujante rede de organizações bancárias em favor de instituições privadas. O dinheiro apurado nas operações, etecetera e tal, coisa e loisa, constituiria decisivo suporte para o tão almejado equilíbrio das contas públicas. Perguntar não ofende, tá bem? Será que isso ficaria mesmo demonstrado numa eventual reavaliação do processo de privatização transcorrido, em que fosse utilizado trabalho de auditoria que escarafunchasse devidamente a questão? Oportuno manter esse lance no foco das atenções à hora em que defensores da privatização de ativos públicos a qualquer preço, ostentando a mesma linha de raciocínio, saem a público dizendo que a privatização da Cemig representa a “salvação da lavoura” para as combalidas finanças das Gerais.

Num instante assinalado pela escassez de lideranças e ideias, muitos da geração deste desajeitado escriba evocam, saudosisticamente, personagens que deixaram impressas, na caminhada da construção nacional, pegadas cintilantes. Ulysses Guimarães, pela atuação no capítulo da redemocratização, foi um desses. Faz sentido, pelo sabor de atualidade de que ainda se revestem, reproduzir, aqui, apreciáveis conceitos por ele expendidos. Vamos lá: “Democracia é estado de direito, liberdade de pensamento e de organização popular, respeito a autonomia dos movimentos sociais. Repousa na existência de partidos políticos sólidos. Democracia significa voto direto e livre, significa restauração da dignidade e das prerrogativas do Congresso e do Poder Judiciário, significa liberdade e autonomia sindical, significa liberdade de informação e acesso democrático aos meios de comunicação de massa. Democracia implica democratização das estruturas do Estado, implica resgatar a soberania nacional, implica redistribuição da renda, criação de empregos, e bem-estar social crescente.”

Vez do Leitor. O engenheiro Aloísio Vasconcelos comenta o artigo “Cemig: privatização fora de propósito” (DC 24/09): “Fico honrado, e julgo importante, a sua concordância com as teses que estamos defendendo. Apresentamos dezenas de irretocáveis argumentos … E o Governo só tem um único discurso = tem que vender tudo para fazer dinheiro e aceitar o exigido pelo Gov. Federal … ora, seria cômico se não fosse trágico. Mas, seguimos em frente, acreditando que a Assembleia não aprova essa loucura.”

A propósito do mesmo artigo, escreve-nos o engenheiro  Guilherme Roscoe: “O argumento inicial do autor não é um argumento é apenas uma opinião. A meu ver errada. Sou a favor de privatizações, a princípio, sem exceções! Gostaria de receber argumentos verdadeiros para ter a chance de, se for o caso, rever minha posição.”

*  Jornalista ([email protected])