Para Mateus Simões ainda há muito o que se fazer para reconstruir imagem do homem público - Crédito: Wagner Costa

“O Brasil vive, talvez, o momento mais triste da história dele no que diz respeito a parâmetros éticos dentro da conduta pública”. A frase, dita pelo vereador e presidente do Conselho de Ética Pública do Estado de Minas Gerais, Mateus Simões (NOVO), durante o almoço-palestra da Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE), realizado na sexta-feira (23), permeou as discussões do evento.

No encontro, realizado na Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Simões ressaltou que não adianta acreditar que a Lava Jato “lavou o Brasil”. Lembrando-se das ações da operação, o vereador destacou que ela é um primeiro movimento, mas que ainda há muito o que se fazer para que se possa reconstruir a imagem do homem público brasileiro.

“A população olha para o poder público e enxerga um ambiente de corrupção, um ambiente de desvio, onde quem está lá se serve do Estado em vez de trabalhar em prol do interesse dos cidadãos”, diz. “As pessoas têm de voltar a acreditar na estrutura estatal, até porque os impostos são recolhidos e entregues para esses indivíduos administrarem”, salienta.

Dados – Os números reforçam como o Brasil enxerga a questão da corrupção. Para se ter uma ideia, em 2018, segundo a Transparência Internacional, o País atingiu a pontuação mais baixa e teve a pior colocação no Índice de Percepção da Corrupção (IPC) desde 2012, ano em que os dados começaram a ser comparáveis anualmente.

A pontuação do Brasil passou de 37 para 35, de 2017 para o ano passado, em uma escala de 0 a 100 (0 significa que o País é considerado altamente corrupto; já 100 significa que é considero bastante íntegro). Atualmente, o Brasil está no 105º lugar entre as 180 nações avaliadas pelo IPC – a primeira posição pertence à Dinamarca, com 88 pontos.

Segundo Simões, é preciso que haja um compromisso com uma postura mais firme com os desvios de comportamento.

“Isso vai nos levar para o outro lado da jornada, da travessia do país em que todo mundo desconfia das instituições para o país em que a gente volta a confiar na política, no espaço e nos homens públicos”, diz.

Para ele, porém, essa mudança de percepção não é algo que vai acontecer do dia para a noite, pelo contrário.

“É uma tarefa de 50 anos, mas, se ela não começar agora, não vai terminar nunca”, salienta.

Como chegar lá – Diante desse cenário, fica a pergunta: Como, afinal, obter esses resultados positivos no que diz respeito ao combate à corrupção? Para Simões, “especialmente, reforçando as estruturas de combate a desvios éticos”.

O presidente do Conselho de Ética Pública do Estado de Minas Gerais defende que “as punições têm de ser aplicadas, as regras têm de ser claras e não se pode fechar os olhos para nada. A população tem que voltar a usar os canais de ouvidoria para fazer denúncias, a controladoria tem de agir para punir os responsáveis e os conselhos de ética têm de estar sempre presentes, vigilantes e orientando os servidores públicos”, ressalta.

De acordo com Simões, a questão ética foi muito banalizada e questões que deveriam ser inaceitáveis acabam sendo tratadas como normais.

Legislação – O vereador não defende mudança de lei, mas sim, mudança de cultura. “O comportamento das pessoas é que precisa ser revisto, não a norma que as rege. Nós já temos leis demais no Brasil. Aliás, isso, talvez, tenha servido para que as pessoas aceitassem que o que não está proibido na lei está ‘ok’”, afirma.

“Nós temos que voltar a nos preocupar com a honestidade e não só com a legalidade”, complementa.