Rogério Faria Tavares*

Lembrou-se das madrugadas passadas em claro, preocupada com o futuro das filhas. Das inúmeras vezes que andara pelo corredor, procurando não fazer barulho. Acendia um cigarro às três da manhã, fazendo contas. Que outras despesas podia cortar? Os livros?

Não, esses nunca. ‘Educação foi a única herança que recebi de meus pais. É a única que vou deixar para elas’. Durante toda a vida, Jade e Lua estudaram nos melhores colégios, graças às bolsas de estudo a que tinha direito a mãe professora. Aplicadas, tiravam excelentes notas. Conscientes do empenho de Gilda, faziam a parte que lhes cabia.

Livres por natureza, jamais qualquer complexo fora capaz de capturá-las. Conviviam com os colegas ricos sem qualquer problema. São ‘desencanadas’ desde que nasceram, gostava de comentar tia Olímpia. Com idêntica alegria, desde pequenas, brincavam pelas ruas do bairro sem estabelecer qualquer classificação quanto aos amigos. ‘E moram onde, esses meninos? Nas casas de cima, nas de baixo, ou já na entrada da favelinha?’, perguntava a madrinha, quando vinha do interior para consultas médicas. “Você conhece essas famílias, Gilda?” O padrinho não deixava por menos: “Não seja irresponsável, Gilda. Regule essas companhias agora, para não se queixar depois”.

A mãe olhou para as mãos calejadas, cansadas da costura, da cozinha e do artesanato que vendia na feira de arte, aos domingos, depois que se aposentou. Projetou-as contra a janela, esticadas. Fechou-as em concha, logo tornando a abri-las. Sim, ainda lhe restavam forças. Lá fora, o sol iluminava mais um dia. Olhou para baixo.

O formigueiro já estava a toda, como gostava de dizer. Suspirou fundo. Repassou mentalmente as tarefas que lhe aguardavam. Pediu energia para continuar. Um café forte, bem forte, ajudou-a a empertigar o corpo. Trocou de roupa em um minuto. Passou pelo quarto da caçula, faltando-lhe coragem para bater à porta. “Não dou conta”.

Parando, repetiu para si mesma, como quem precisa vencer um obstáculo: ‘Não, eu ainda não dou conta’. Seguiu para o sacolão disposta a esquecer o assunto, pelo menos por algumas horas. Ainda no quarteirão de casa, encontrou-se, por acaso, com Jovelina, antiga colega de faculdade, que lhe perguntou se não gostaria de voltar a dar aulas: “Não, não é em uma escola tradicional não. É num centro cultural. Num curso sobre história da arte. Já falei com a coordenadora sobre você. Ela se entusiasmou. Acho que vale a pena, Gilda. Pense com carinho”.

À noite, inspirada pelo convite de Jovelina, e assim que conseguiu, agarrou uma garrafa de vinho tinto e retirou das prateleiras os livros e as apostilas que costumava usar em classe. Passando as páginas, recordou do prazer que sentia ao falar para os alunos sobre as obras dos grandes artistas. De algum modo, em um certo nível, percebia que era capaz de conectar-se a eles, ou pelo menos de captar a beleza que eles tinham a habilidade de criar.

Viajou no espaço e no tempo, como se estivesse em transe. Já na segunda garrafa, por um segundo, desprendeu-se do chão. Erguendo os calcanhares, realizou o improvável: saiu voando pela sala até cruzar a janela. Percorrendo as ruas do bairro, observou as casas de cima, as de baixo, e até a favelinha que, a essa altura, já era uma das maiores da cidade. Mesmo no escuro, podia ver: o formigueiro continuava a toda. Tentou distinguir uma formiga da outra. Impossível. Eram todas iguais. Não havia formigas maiores nem melhores nem mais bonitas que outras.

No dia seguinte, acordou a tempo de tomar o café com Jade, a primogênita, sempre apressada para os compromissos do doutorado, no campus da universidade. Ainda “de ressaquinha”, ligou para Jovelina animada, pedindo a ela que marcasse sua visita ao tal centro cultural. Assim que Lua e Suzy acordaram, encontraram a mesa posta e um bilhete amoroso da mãe: “Seja sempre bem-vinda a essa casa, Suzy. Se aqui é a casa de Lua, é a sua casa também, se você quiser”.

*Jornalista e presidente da Academia Mineira de Letras