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Cesar Vanucci *

“A cobiça internacional é uma realidade.” (General Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, em palestra feita no Lions em 2008)

Anotamos recentemente, nesse acolhedor espaço, sugestivos trechos de um pronunciamento do ilustre Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, General Augusto Heleno, sobre os insofismáveis e imprescritíveis direitos soberanos do Brasil sobre o dadivoso território amazônico. Ele proclamou, com todas as letras, traduzindo com fidelidade o sentimento cívico nacional, o que precisa ser dito a respeito do palpitante tema. A enfática manifestação conduziu-nos à lembrança de uma memorável palestra, proferida em 2008 numa convenção do Lions Clube em Poços de Caldas, por um outro oficial de patente graduada do Exército, General Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, ex-Comandante Militar da Amazônia.

Por mais de duas horas, os convencionais acompanharam, eletrizados – esta, a palavra exata – a magistral exposição. Inteiraram-se de revelações de substancioso conteúdo geopolítico-econômico e cívico relacionadas com a fascinante temática. A mensagem, encharcada de humanismo, chamou todo mundo a uma reflexão aprofundada sobre o que o expositor definiu como questão prioritária na atualidade brasileira. Algo que tem a ver com o futuro de nossos filhos e netos e com a soberania nacional. A Amazônia legal – conforme explicado naquela ocasião – estende-se por nove Estados. Representa 56% de todo o território brasileiro. Sua população é estimada em 21 milhões, para uma população nacional de 186 milhões. O território é de riquezas sem par. Por isso sob alvo permanente da cobiça internacional. Amostras abundantes de como essa cobiça se expressa foram fornecidas. Uma delas: declaração, de algum tempo atrás, do então diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. Esse cidadão, de nacionalidade francesa, andou propondo, arrogantemente, que a Amazônia fosse transformada “em bem público mundial, com gestão coletiva”. Seu desatino verbal deu eco a manifestações de teor parecido, produzidas anteriormente por figuras de presença realçante na cena internacional. Como o americano Al Gore, o também francês, já desencarnado, François Miterrand, os ingleses Margareth Thatcher e John Major, o russo Mikhail Gorbachev, outros mais, iguais ou menos votados, como se diz por aí…

O general Lessa asseverou, na aplaudida exposição, que a cobiça alienígena é uma realidade, bem palpável. Sob pretextos de estarem trabalhando em favor da necessária e importantíssima preservação ambiental da área e, ainda, em prol das populações indígenas, compromisso histórico impostergável da sociedade brasileira para com os descendentes dos primitivos habitantes do país, agentes estrangeiros julgam-se autorizados a promover desabridas interferências nas políticas brasileiras de gestão na Amazônia. Parcela considerável desses elementos perniciosos infiltraram-se em muitas das milhares de ONGs que mantêm atenção constante voltada para aquela parte do continente brasileiro. Essa ação danosa aos interesses nacionais coloca na alça de mira as incomensuráveis riquezas do solo e do subsolo. Riquezas minerais, compreendendo ouro, nióbio, petróleo, gás, outros materiais estratégicos, que nenhum outro pedaço de chão do planeta tem pra oferecer, com tamanha prodigalidade, ao desenvolvimento econômico e bem-estar humano. Riquezas representadas também pela existência ali do maior reservatório de água doce (20%) do globo. E ainda pela biodiversidade da fauna e flora incomparáveis. Por aí vai.

Pelo que se depreendeu do memorável pronunciamento, a integração social e econômica almejada carece ser lastreada numa política inteligente de ocupação de terras, que leve em conta, sim, os aspectos ecológicos e a salvaguarda dos direitos das etnias indígenas. Mas, nas concessões de terras aos índios, releva registrar alguns pontos essenciais: as extensões exageradas das áreas cedidas; a preservação, para que possam ser explorados em proveito da nação, dos locais que abriguem as grandes riquezas minerais; demarcações que guardem natural distanciamento das zonas fronteiriças, por razões mais do que óbvias.

Uma revelação do general que deixou muita gente tomada de surpresa foi a de que, ao contrário do que comumente se supõe, nenhum metro sequer da parte da floresta correspondente ao Amazonas, maior Estado da região norte, tinha sido alvo, até aquela época pelo menos, de qualquer ato devastatório. Outra informação significativa disse respeito a ação das Forças Armadas naquele pedaço dadivoso do Brasil. O Exército, por exemplo, havia implantado, até ali (2008), nas regiões de fronteira, quase 50 unidades, providas de pistas de pouso e serviços básicos essenciais. Os militares e familiares que as habitavam representavam a linha mais avançada da presença brasileira em nossos limites geográficos mais longínquos. Lamentavelmente, porém, dependências instaladas nessas mesmas unidades, reservadas, naquela época, para acolherem outras instituições e serviços governamentais, nunca, jamais, em tempo algum, foram ocupadas por quem quer que seja.

A palavra do general Lessa deixou marca forte no espírito de todos os que estiveram presentes ao encontro leonístico de Poços de Caldas. Ficou claramente evidenciado que a Amazônia não é apenas uma questão de governo, de política pública. Mais do que isso, é questão que clama pela conscientização plena de toda a sociedade. Brota aí, inevitavelmente, uma desassossegante interrogação: alguém pode, por favor, explicar a razão do silêncio de tumba etrusca que, na grande mídia brasileira, recobre as palpitantes questões levantadas, tão fundamentais aos projetos de construção de nosso futuro?