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Manaus - Familiares aguardam informações sobre parentes presos na Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Quarenta linhas: foi o que lhe deram para tentar convencer o imperador a poupar sua vida. Todo ano, perto do Natal, concedia-se o perdão a um dos sentenciados com a pena capital. Mesmo descrente de suas possibilidades, Moreno animou-se a exercer o seu direito. E se o homem, por algum acaso, se convencesse da utilidade ou até da validade da sua existência?

Pelas grades, Jucílio entregou-lhe a folha e a caneta, já advertindo: ‘nada de rasuras, seja limpo. Mostre consideração. E inteligência. Letra legível, por favor. É o próprio imperador quem lê os pedidos de clemência, e ele descarta logo aquilo que não entende de primeira’. Depois de informar que voltaria no final do dia para recolher o texto e encaminhá-lo ao palácio, o carcereiro deu passos cautelosos até postar-se em frente à cela vizinha, quando fez preleção semelhante, mas bem mais cordial. O cubículo era ocupado por Otto, o anjo louro, os olhos azuis e os traços finos, a voz mansa e pausada, a condenação por mais de quarenta estupros contra mulheres e meninas.

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Sozinho novamente, Moreno deu de cara com a pergunta incômoda, para a qual nunca encontrara resposta convincente: por que merecia viver? Mais: para que desejava continuar vivo? As ideias pipocavam desordenadas.

Embaralhando-se na sua cabeça, disputavam, aguerridas, a sua atenção, perturbando-o. A que apareceu primeiro veio acompanhada da figura imaginada de Jacinto, que teria agora dez anos. Queria muito voltar a vê-lo, olhar nos seus olhos e pedir perdão. Ansiava por uma nova chance. Seu sonho era ser aceito, finalmente, na função de pai. Uma lágrima brotou, inesperada, chegando a molhar o papel. Desde quando não abraçava o menino? Como estaria o seu rostinho, passados tantos dezembros?

Também pretendia fazer dona Lara voltar a orgulhar-se dele. Já idosa, ela definhava de desgosto e saudade, na cidadezinha em que nascera e morara a vida inteira, ajudando o marido no trabalho, cuidando da casa e criando sete filhos. Se lhe fosse dada outra oportunidade, Moreno, seguramente, não iria desperdiçá-la. Correria para os braços da mãe, na esperança de atenuar a sua dor tão aguda e tão prolongada.

Lembrou-se, no entanto, de dona Lavínia, de seu Geraldo e da filha deles, Mônica, a mãe de Jacinto. Contraindo a fisionomia, tentou evitar as recordações de quando perdeu a cabeça, por ciúmes. Sua fúria era tanta que o tiro certeiro não foi o suficiente para aplacá-la. Completou o ato com requintes de crueldade. Aterrorizado consigo mesmo, entregou-se imediatamente à polícia, confessando, com detalhes, a barbaridade cometida. A partir daquele dia, vivia atormentado por aquelas memórias. Entregar o papel absolutamente em branco gerou o mais profundo alívio que experimentou desde então.




Otto deixou o seu cubículo em quatro semanas. O anjo louro ganhou de novo as ruas, voltando aos hábitos e aos vícios de sempre. Os olhos azuis, os traços finos, a voz mansa e pausada. A liberdade em quarenta linhas magistralmente escritas.
 

  • Jornalista. Da Academia Mineira de Letras
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