Que semelhanças têm o Brasil de 2020 com aquele de 31 de março de 1964? “Os anos de chumbo”, lançamento da Editora Planeta, refaz o percurso político, social e histórico do País desde o governo de Jânio Quadros até a instauração da ditadura militar. “A militância, a repressão e a cultura de um tempo que definiu o destino do Brasil”.

Este é o subtítulo do livro, de autoria de Luiz Octavio de Lima, jornalista reconhecido por sua profunda pesquisa política, que faleceu em janeiro de 2020, pouco tempo antes da publicação desta obra.

Trata-se de um compilado de materiais inéditos sobre os acontecimentos políticos que desencadearam o golpe de 64. Dedicado em sua epígrafe “às novas gerações”, este é um livro que questiona essencialmente como os caminhos da repressão e da censura afetaram o Brasil e o cotidiano das pessoas, e o que foi feito para levar o país à redemocratização.

O livro contém entrevistas inéditas com personalidades da época e revisões bibliográficas, além de brindar o leitor com a presença de dois nomes de peso para o pensamento político no Brasil e no mundo, o historiador brasileiro Laurentino Gomes (autor de “1808”), que assina o prefácio da obra, e Noam Chomsky, um dos principais linguistas e filósofos em atividade no mundo, que escreveu a quarta capa de “Os anos de chumbo”. Já a preparação do livro é assinada pelo premiado escritor Tiago Ferro (“O pai da menina morta”).

Atualidade e crítica em uma obra que não se esgota – Para Noam Chomsky, o ano de 1964 representa “o mergulho do Brasil na escuridão”, daí a importância de nos ancorarmos nos aprendizados que esse período ainda nos fornece para problematizar os rumos do país.

“Uma análise abrangente desse período doloroso e crítico da história moderna do Brasil, tendo como objetivo ‘imergir o leitor no tempo retratado’ em toda sua rica variedade e complexidade. É uma contribuição muito valiosa para a compreensão histórica, com especial significado devido a suas duras e urgentes lições para o hoje”, afirma o pensador na quarta capa do livro.

Com a seriedade e a sobriedade que definiu o seu trabalho por décadas, Luiz Octavio acompanhou pessoas que tiveram importância direta ou indiretamente para a manutenção ou subversão do estado de coisas antes, durante e após o Golpe, passando por auxiliares de figuras da repressão, integrantes da Comissão Nacional da Verdade, líderes estudantis tornados guerrilheiros e participantes da conspiração pré-1964. Uma das entrevistas de destaque é a do Cabo Anselmo, personalidade controversa que passou da militância marxista à colaboração com órgãos do regime militar.

Tendo a democracia como elemento chave que dá norte às suas reflexões, o livro instiga a pensar o presente e o futuro a partir de um olhar criterioso para o passado. “Toda boa síntese histórica cria novos significados e propõe olhares inusitados com o intuito de colaborar com o debate público atual. Este livro de história tem a urgência de quem sabe que é preciso resgatar a tão maltratada democracia. Esta publicação é uma boia de salvamento lançada ao futuro”, defende Tiago Ferro. Não por acaso, o questionamento de Laurentino no prefácio é a pergunta que provoca o leitor da primeira à última linha do livro: “Seria o Brasil de hoje muito diferente daquele descrito em Os anos de chumbo?”.

Conexão – O livro revisita, analisa e lança novos olhares para um passado de luta, massacres, incertezas e resistências, mas sem perder a incômoda conexão com o presente e a leveza na linguagem, como atesta Laurentino Gomes no prefácio.

“A capa deste livro talvez merecesse uma advertência, à semelhança das embalagens de medicamentos. Sob o encantamento e a leveza do estilo literário de Luiz Octavio de Lima estão algumas perguntas incômodas, de cujas respostas dependem o sucesso ou o fracasso da construção do Brasil neste início de século XXI. Por que a tentação totalitária é tão forte entre nós? Conseguiremos persistir na democracia e consolidar essa forma de regime político sem correr o risco de novas e traumáticas rupturas que tanto nos assombraram no passado?”, afirma o jornalista.

Assim, o estilo literário característico do autor empresta uma prosa poética para a narração de um dos capítulos mais emblemáticos da história recente do país. Passando por episódios marcadamente decisivos, como o Terror no Guararapes, a Primavera Operária, a efervescência política dos festivais, o movimento jovem da década de 60, o conflito armado na Maria Antônia, e a instituição do Ato Inconstitucional número 5, a obra provoca a pensar sobre a atualidade de algumas manobras políticas e por que seus efeitos, motivações e consequências podem atravessar os tempos. (Da Redação)