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#DC Mais | Imagem: Pexels / Arte: Will Araújo
#DC Mais | Imagem: Pexels / Arte: Will Araújo

Impedido pela pandemia de ir ao botequim do Abel para tomar as suas habituais cervejas, Zé da Pipa sentou-se na extensa área descoberta do seu apartamento. Queria aproveitar a suave brisa vinda da praia de Ipanema. A aurora começara a se espreguiçar, mas ainda dava sinais de que demoraria um pouco mais para deixar a sua cama.

O boletim meteorológico indicava, entretanto, que quando sol estivesse a pino, ele obrigaria os defuntos que tivessem baixado ao inferno naquele dia que voltassem à terra para buscar os seus cobertores.

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Mal ele se acomodara, o telefone celular, colocado ao seu lado, tocou.

“Alô, Zé, sou eu Nilton Porfirio”. “Eu sei que é você. Mas não é um pouco cedo, não?” “Tive uma ideia maravilhosa. Que tal se fizéssemos uma bolha dos amigos e nos encontrássemos todos em seu apartamento. Afinal,a sua área externa de 60 metros nos permitiria manter um certo distanciamento”. “Olha aqui, Porfirio, em você e no Jorginho Parangolé eu até confio, mas no Sérgio Bode, me desculpe, o cara é influenciado pelas atitudes genocidas do presidente, não usa máscara e se aglomera por aí.” “Eu sei, Zé, mas podemos conversar com ele.”

“Ele já se arrependeu de ter votado no homem?” “Que eu saiba, não” “Pois é, será impossível convencê-lo a mudar; afinal a sua razão encontra-se em sono eterno. Tal qual a de todos aqueles, ingênuos e tolos, que não conseguiram decodificar a boçalidade e marginalidade no comportamento deste indivíduo que nos governa”. “Mas, se ….” “Não tem se, Porfírio. Já não aguentava mais ver o Sergio defendendo o governo, fui salvo pelo nosso isolamento. Não posso admitir a barbárie perpetrada pelas ações governamentais; aí não cabe nenhuma interpretação polissêmica e todos os signos se esgotam em si mesmo”. “Você está sendo muito rígido, Zé, pega mais leve” “Pega mais leve? Para viver nessa sociedade distópica, preciso ressuscitar os monstros de minha fantasia. Você sabe o que tem de melhor para mim? Pois lhe digo: os meus desejos; e o mais importantes deles no momento: o sumiço de um certo capeta.” “Mas ainda temos uma democracia, não?” “Porfírio, entenda uma coisa, há dois anos a República despiu-se de sua vestimenta democrática. Preferiu, em seu lugar, a mais sórdida e arcaica roupagem. Os fanáticos inquisitoriais encontram-se em frenético ativismo”. “Mas as pesquisas mostram que o apoio ao presidente despencou.” “Sim, caiu bastante, mas esses tais fanáticos ainda o consideram um mito e no Brasil o mito é mais que o nome, a sua existência substancial é precisamente o problema. Penso que só o seu impedimento, no qual não acredito, poderia evitar que afundasse de vez com o país.” “Quem sabe esse grupo que o apoia não mude de ideia?” “Você conhece a República de Platão, um filósofo grego, discípulo de Sócrates, que viveu no século IV aC? Pois bem, nessa sua obra, no livro VII, que pode ser considerado o mais completo resumo de toda a República, há uma alusão à dialética e ao conhecimento. Um dos temas desenvolvidos é a alegoria da caverna, a imagem de nossa natureza, no que diz respeito à educação e carência de educação”.

“A história contada por Platão envolve algumas pessoas mantidas como prisioneiras no fundo de uma caverna. Todos estão acorrentados diante de uma parede, e não lhes é permitido se virar e olhar para trás. Estão condenados a passar toda a vida olhando para a parede. Atrás do grupo de prisioneiros, há uma fogueira e uma trilha, essa última utilizada pelos carcereiros. Os objetos carregados por esses carcereiros projetam uma sombra na parede, em frente aos prisioneiros, os quais passam sua vida pensando que cada sombra projetada nessa parede é um objeto real. Um belo dia, um dos prisioneiros se liberta e descobre que as sombras projetadas na parede não eram objetos reais. O que ele julgava ser a realidade (um mundo real) era, na verdade, um desfile de sombras. Quando esse prisioneiro retorna e tenta convencê-los de que aquilo que veem é apenas uma sombra, é apedrejado.” “Entendi; quer dizer, então, que esses bolsonaristas empedernidos são os prisioneiros dessa caverna; não querem ver a realidade que os cerca?” “Exato, meu caro. Para Platão, havia uma hierarquia nos graus de conhecimento. O primeiro desses graus, situado em um raso patamar, se configura através do conhecimento adquirido pelos sentidos do corpo, quando as pessoas não arredam pé de suas convicções. Ainda que tudo mostre que estão erradas, veem só aquilo que querem ver. No outro grau, situado em uma escala superior, o conhecimento ancora-se na racionalidade. Racionalidade essa, que nos mostra que aglomerar, não usar máscara e não tomar vacina são as atitudes provocadoras de todas essas mortes ocorridas pela pandemia. E a maior responsabilidade recai sobre quem, lamentavelmente, está aí a nos governar. Bem, meu amigo, já nos alongamos demais. Tenho que ir, o café da manhã me espera”, diz Zé da Pipa despedindo-se do amigo.

*Escritor
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