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CARLOS PERKTOLD*

Cheguei à idade de reler os livros clássicos, em especial nesta época de pandemia. Alguns deles li na juventude e não me dei conta da beleza das palavras formadoras de frases contadoras de estórias, biografias e ficções apaixonantes e que, se não as desvalorizei, não as valorizei como faço hoje. Naqueles anos eu era jovem e tolo, dois apostos do sujeito que nos fazem fisicamente bonitos e cheios de tolice na cabeça. Imagino que ocorra o mesmo com a moçada de hoje porque, afinal, não se pode ter tudo de bom na vida de uma única vez.

O livro que releio neste momento é o célebre “O Nome da Rosa”, de Humberto Eco, intelectual italiano que nos deixa humilhados e perplexos pela sua erudição, cultura e pela elegância de seu estilo. Nem imagino se os literatos colocam-no na lista dos clássicos. Se não o fazem agora, por certo o farão no futuro.

Imagino também o trabalhão da pesquisa histórica que foi necessário para Eco escrever sobre a investigação que um sacerdote e seu discípulo fazem de alguns assassinatos de seus colegas em abadia medieval. Haja adjetivos para falar de sua cultura quando descreve os personagens da Idade Média, homens e mulheres que se tornaram santos da Igreja católica e de padres diabólicos esquecidos. Há muitas citações em latim que deixa ex-aluno como eu dessa importante língua semimorta, atordoado com a leitura, sem saber se procura em dicionários o significado de cada palavra, e depois as coloca na ordem em português ou se coloca a citação completa no doutor Google.

Por várias vezes, preferi essa última opção. Surpresa! Lá estão todos os trechos do mestre italiano mencionando até mesmo a página do livro onde ela se encontra de determinada edição. Alívio intelectual capaz de facilitar a leitura e nos fazer compreender o parágrafo seguinte. Talvez eu não precisasse do Google se tivesse sido melhor aluno às saudosas aulas de outro erudito que foi o Padre Valentim do Colégio Santo Agostinho, onde o menino de 12 ou 13 anos deveria ter adquirido vocabulário, aprendido a ler, a pronunciar as palavras e as declinações de língua tão difícil aos meus olhos juvenis. Bons tempos os dos anos 1950 nos quais até latim fazia parte do curriculum do ginásio para jovens daquela idade.

Humberto Eco vai desenvolvendo a história, prendendo a atenção do leitor e nos faz acompanhar as misérias humanas de cada personagem dentro da abadia e sua fabulosa biblioteca, local de frequência para poucos dos seus integrantes, cheia de chaves, truques e labirintos para entrar, itens metafóricos de que o conhecimento é adquirido por intermédio de esforço intelectual próprio. Como na época dissertada o conhecimento era matéria rara e o analfabetismo era a regra, havia poucos livros pelo mundo e os que haviam, tinham sido tomados emprestados de outras abadias para cópia. Portanto, uma biblioteca grande como a descrita neste romance histórico era o resultado de séculos de esforços de copistas abnegados.

Eco não relata, mas conta a lenda que os alfabetizados no passado escreviam emendando as palavras umas às outras a fim de dificultar o aprendizado e a leitura de outros, evitando concorrência na cultura e no conhecimento. Ainda hoje existem atitudes semelhantes das pessoas por que a natureza humana sempre foi difícil de lidar.

Comentei com uma pessoa sobre minha releitura e ela, cinéfila, me perguntou se o livro era “aquele no qual um padre vai morrendo atrás do outro porque passavam as páginas colocando a mão na boca para virá-las”, referindo-se ao filme com o mesmo nome do livro. Respondi que sim, mas que o livro era muito mais que isso. Ele é um show de erudição e cultura como poucos já escritos.

*Advogado, psicanalista e escritor (perktold@terra.com.br)