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IDEIAS | Um cemitério, uma reencarnação e um filme

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Crédito: Pixabay

Naquele lugar, guardado por longos muros, um ar modorrento, seguido por um leve vento, fazia qualquer um desejar o mais temível dos invernos siberianos. Aquele vento ainda era responsável por espalhar no ar as contínuas lamúrias que brotavam do local. A essas lamúrias se juntaram os lamentos de Nilton Porfírio, levado para ali contra a sua vontade por Zé da Pipa.

— Ainda não sei porque aceitei o seu convite para vir aqui. Nunca, em meus 60 anos, pisei em um cemitério. A minha serenidade, modéstia à parte, digna das boas pessoas, em mais alguns momentos, se dissipará e passarei a expressar um pavor diante de tantos túmulos.

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— Calma, eu não diria que o correio celestial esteja prestes a chegar com a carta do universo, convidando-o a deixar a vida terrena. Mas, você deve acostumar-se à ideia de que um local parecido com esse será a sua morada eterna. Atormente-se por outras angústias, meu caro. E, depois, esse cemitério não é tão feio assim.

— Não existe cemitério bonito para mim, nem mesmo a cantada beleza de um Père Lachaise, em Paris, ou de um Recoleta, em Buenos Aires, me fariam mudar de ideia. O sol que brilha aqui reduz as cores do disco de Newton a uma só cor, a roxa, uma cor pela qual não tenho a menor simpatia e que manda meu conforto passear a léguas desse horrível lugar.

— Que fique claro que a beleza a qual me refiro deve-se às lápides. Bem, de uma certa forma, essa beleza acaba desaparecendo, vez que os aqui enterrados representam a indecência humana em sua pior configuração. A ideia de criarem um cemitério especial para os que, quando vivos, fizeram maldades, não poderia ser melhor.

— Eu conheço muito bem a estirpe desses tais defuntos; espero que suas excomungadas almas estejam no poço de Tártaro, purgando as imundícies e maldades que perpetraram. Ainda que alguns desses, antes de darem seus suspiros finais, tenham deixado de lado as mentiras em que viviam.

— Isso, com certeza, não os salvou do julgamento do lá de cima. Afinal, as suas verdades não eram águas de nenhum translúcido rio, representavam o pior dos esgotos.

— Mas, o que o levou a trazer-me aqui?

— Quero lhe encomendar um trabalho. Para ser mais exato, quero que faça um filme sobre o que irei lhe falar nesse momento — disse ele, apontando para as covas —. Afinal, você é um cineasta e acho que poderá fazer um bom trabalho com o farto material, representado pelas ações desses defuntos quando estavam vivos. A ideia seria reencarná-los, deixando, entretanto, que soubessem quem foram na vida passada. Então, vamos lá. Comecemos com essa aqui. Sugiro que a faça voltar como uma lésbica e que sofra na carne todo preconceito e perseguição possíveis pregados por ela em seu posto administrativo. Já para esse, gostaria que viesse como uma árvore que está sendo queimada, ou talvez que estivesse sendo cortada pela motoserra. Ah, não esqueça de sangrar o corte. Agora, com relação a todos esses outros, que venham como cães, maltratados pelos seus donos pelo excesso de lambida que lhes dão. Bem …

— Isso é tudo?

— Ah, claro que não, faltou o protagonista do filme. Para ele, figura especial, que, guardada as devidas proporções, poderia ser comparado a um Leopoldo II da Bélgica, tenho também algumas indicações.

— Leopoldo II?

— Sim, mas atente para um fato. O tal Leopoldo era culto, inteligente e bastante criativo. Esse que aqui está não teve esse privilégio. Nasceu com vários defeitos, mas tal qual o imperador da Bélgica enganou muita gente. Penso que ele poderia renascer como um doente contaminado por um vírus, o tal vírus que matou muita gente, no mundo, há algum tempo. Nesse caso, você poderia optar por dois finais. Em um primeiro, ele tomaria um kit de remédios contraindicados pela ciência e teria uma grande bagunça nas suas enzimas hepáticas. Em seguida, ele morreria enquanto aguardasse na fila por um doador de fígado.

— Ufa, você não está fácil.

— O mal que causou a milhares de pessoas, justifica o meu pedido. Além disso, já estão mortos. Voltarão à vida só por um breve momento. Continuemos com esse Leopoldo dos trópicos. Eis a segunda sugestão: ele teria a sua saturação de oxigênio muito baixa, o que o levaria a ser entubado. No entanto, como não havia cilindro de oxigênio no hospital onde estava,a gente já sabe qual seria o seu final, né?

— Morre sufocado… que horror Zé!

— Pois é, o mesmo horror pelo qual passaram milhares de vidas perdidas para o famigerado vírus. Mas isso não é nada… Afinal, todos morremos um dia, não é assim?

*Escritor com uma trajetória literária que inclui a autoria de oito romances, alguns deles publicados em Angola, no Brasil, na Croácia, na França e na Itália
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