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IDEIAS | Um livro, dois finais

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Crédito: Pixabay

Em 2007, quando escrevi o meta romance “Um escritor e seus fantasmas em Paris” (título atualizado na 3ª edição), a voz que dei ao meu personagem, em determinado momento, dizia: “Paris talvez seja a única cidade do mundo que, mesmo sob luz cinza e persistente chuva, não nos aborrece”. O livro, escrito no gênero do realismo fantástico, trazia à cena escritores já mortos que haviam vivido ou passado pela cidade. Alguns anos depois, um diretor de cinema americano utilizou em seu filme uma contextualização semelhante à do meu livro, trazendo, também, nesse filme, uma fala muito parecida com a do meu personagem. Viva Jung com a sua teoria da sincronicidade.

 Pois bem, agora, 14 anos após, se reescrevesse esse livro, eu incluiria a reação do meu protagonista diante do pesadelo imposto pela pandemia do vírus Sars-Cov-2, que, com as suas variantes, até meados do mês de março, já havia tirado, em todo o planeta, a vida de mais de dois milhões e oitocentas mil pessoas. Poderia, para isso, trilhar dois caminhos.

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 Em um primeiro, a fala de meu protagonista saltaria de sua boca para, com um fôlego curto, e devorado pela angústia, exprimir exatamente o contrário do que dissera antes, toda a sua desolação com a Paris atual. A luz cinza, que raramente cede espaço ao azul, e a persistente chuva, que antes não o aborrecia, já não conseguiria afastar o tédio que costuma tomar de assalto os dias que, mesmo encurtados pelo inverno, parecem ter uma duração eternal. A sua solidão, decretada pelo isolamento adotado, o colocaria em uma intransponível trincheira, onde ficaria escravo das suas obsessões. Ele saberia que, a partir daquele momento, jamais poderia ser aquilo ou aquele que fora um dia. A sua esperança no futuro, agora posta em pauta, lhe causaria incuráveis depressões. O fim, bem, o fim não poderia ser outro: ele morreria de tristeza, não de outra coisa.

Para não parecer um autor “cumulus nimbus”, reescreveria o livro em uma segunda opção, com uma ótica mais encorajadora, em uma tentativa de estimulara resiliência e o otimismo de cada um. Usaria para isso, como âncora, uma passagem de “O Magico de Oz, – filme de Victor Fleming, EUA, 1939. Os seus 82 anos de existência não o envelheceram. Pelo contrário, ainda nos permitem, neste problemático mundo, ter o desejo de sermos apanhados por um tornado e transportados para uma terra, além do arco-íris, onde possamos realizar as nossas aspirações.

Para os que não viram o filme, o que move os seus personagens, em busca do mágico de Oz, é a procura de alguma solução para os desejos e carências de cada um deles. Ao final da história, todos descobrem que já possuíam dentro de si mesmos aquilo que procuravam do lado de fora. Não precisavam de nenhuma mágica. Considerando que o meu protagonista não é a Dorothy, que não tem o cachorro Totó, e tampouco a bruxa boa – Glenda –, e, muito menos, o mágico, ele descobriria, por si mesmo, ter o que precisa para alcançar os seus objetivos. Sem um tornado para transportá-lo, ele usaria as suas reflexões no livro que escreve para, por um lado, fazer os seus leitores decodificarem em suas almas todos os signos capazes de vencer as intempéries trazidas pelas consequências da pandemia.

Por outro lado, ele protestaria contra os que ainda insistem em conspirar contra as medidas preconizadas para o combate à Covid, com especiais referências ao Brasil, país que, para ele, sob os auspícios de um tosco presidente, perdera o seu decoro, perdera a sua mesura e, há dois anos, deixara para o trás o tênue equilíbrio que apresentava. Para ele, aquele país seria um câncer metastático em pleno exercício autofágico, governado por alguém fascinado com a sua própria bizarrice, dono de uma tosca risada que não conseguiria expressar nada além da sua estupidez.

 Diria, também, que, para se elegerem, certos governantes tomam emprestadas algumas maldades enfeitadas do inferno, e conseguem, assim, enganar os tolos obtusos (sem discernimento) que os levaram aos seus “dionisíacos” poderes.

Apesar de saber que a razão dos que ainda continuam a apoiar o presidente daquela nação dorme em sono eterno, tentaria mostrar-lhes que um olhar deve ser sempre mediado por outras representações.

Deixo agora o universo ficcional. Volto a Paris, cidade que escolhi há anos para autoexilar-me, na esperança de que possa extasiar-me, como de hábito, com as flores da nova estação que se aproxima.

*Escritor
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